Drama branco
Drama branco
Calculei que se avançasse mais uns centímetros era certo que acabava por cair no precipício pelo que não avancei, atitude que considero lógica, isto tendo em conta que o precipício era mesmo um precipício, daqueles para onde a gente grita e faz um eco que se repercute durante uma data de tempo e não um precipiciozinho daqueles que se ultrapassam com um salto de pé coxinho como aqueles que eu conheço quando há chuvadas na minha terra e as ruas ficam alagadas e os canos entupidos e os homens da Câmara fazem jus ao facto terem sido eleitos e trabalham finalmente para as eleições que se avizinham quase sempre a seguir a uma chuvada, pegando em pás e picaretas e metendo botas de borracha, normalmente amarelas para condizer com as capas de plástico grosso que também são amarelas, daquele amarelo vivo, tipo canário, excelentes para camuflagem porque têm um gorro atado com atilhos que lhes tapa a cara e a gente nunca sabe se é o Presidente que está lá dentro e pensa que sim, que é mesmo o gajo e vamos a fugir votar nele quando acaba a chuvada.
Pois bem, este precipício de que falo e que era grande, e ainda deve ser, não tenho passado por lá nos últimos tempos mas tudo leva a crer que ele não tenha mexido nem no tamanho nem na profundidade, esse precipício era o precipício por onde se deveria passar caso eu quisesse comprar a baixo preço uma lata de tinta branca e o preço era tão baixo tão baixo que havia gente que pulava o precipício e alguns que se estatelavam lá no fundo nunca mais se ouvindo falar deles mas isso não era importante porque o pessoal que passava por ali e saltava o precipício, ou não saltava como eu fiz porque me estive borrifando para isso e para além disso mesmo havia ainda o facto de não ser assim tão importante comprar uma lata de tinta branca uma vez que a minha casa até era ocre jaune - é preciso saber estas cores como deve ser- pois dizia eu e ainda digo que apesar do perigo os vendedores de tinta branca a baixo preço, mesmo baixo, nunca tinham falta de clientela e fabricavam tinta a dar com um pau aqueles sacanitas de algibeira que tinham descoberto uma mina com aquela ideia de venderem tinta branca a baixo preço.
É claro que a tinta branca a baixo preço era daquelas que caía das paredes à primeira chuvada pelo que o pessoal, que não era parvo de todo, ia comprar a tinta aí pelo final do Outono, pintavam as casas a fugir, a fugir mesmo, aquilo era um ver se te avias e depois ficavam ali especados a olhar para as paredes até que chegasse o Inverno altura em que eles começavam então a refilar contra o São Pedro, que não tinha culpa nenhuma como é evidente, afinal o Santo apenas abre as portas do Céu e só o faz, penso eu, quando as coisas estão complicadas lá por cima e os depósitos, lá de cima, já não aguentam mais e quando o cimento está prestes a estalar.
Pois bem, conforme já disse a minha casa está pintada de ocre jaune, que é assim um amarelo cal, daqueles amarelos tradicionais nalgumas regiões, mas eu tinha pensado e acabei por não concretizar como já disse acima, comprar uma lata de tinta branca a baixo preço para pintar assim como que uma bordadura à volta dos arcos das portas e das janelas, achei que deveria ficar giro mas penso que fiz bem em não arriscar a minha vida por causa disso porque a casa afinal está mais ou menos e para minha grande alegria eu sou dos poucos que não refila com o São Pedro na altura própria e até para chatear os meus vizinhos costumo pôr um guarda sol, daqueles de praia, na rua quando chove e fico ali a olhar para a minha casinha - pobrezinha, diga-se para quem não sabe - com a pintura a aguentar valentemente a intempérie enquanto a pintura dos meus vizinhos se esvai com a água e entra nos tais canos que o Presidente da Câmara vem desentupir de vez em quando embora eu não acredite que seja ele que faz isso de desentupir os canos com picareta pois deve ter um assessor para essas coisas porque o pessoal das Câmaras é gente muito fina e tem assessores para tudo.
É claro que tenho problemas com as telhas e de quando em vez chove-me dentro de casa mas eu subo ao telhado e arranjo as telhas ou não arranjo, depende porque às vezes basta dar um toquezinho assim para o lado ou para afastar ou ainda arranco à força de braço algumas ervas que durante a Primavera e o Verão foram crescendo no telhado, porque os telhados são assim, recebem o pó das estradas e das terras, isso junta-se e faz montinhos e as ervas normalmente daninhas aproveitam o espaço que a natureza lhes dá e vá de crescerem até à altura em que acabam por reter a água da chuva e fazerem com que ela em vez de correr pelas telhas abaixo fique ali parada em remoinho e acabe por descobrir um buraco que lhe dê entrada em minha casa sem convite.
Isso chateia-me, chateia-me bravamente até, porque é perigoso andar em cima dos telhados sobretudo quando está a chover e as telhas estão escorregadias e um gajo tem de fazer um esforço enorme para não se estampar em escorrega involuntário e vir plantar-se todo partido no pátio ou mesmo junto á janela da cozinha, o que seria uma pena e logo para mim que me recusei a fazer a bordadura a branco na casa porque achei que era perigoso saltar o tal precipício para ir comprar uma lata de tinta branca a baixo preço.
Acho que seria o cúmulo eu partir-me todo quando estou a arranjar o telhado quando fiz todos os possíveis para não me partir todo para comprar uma lata de tinta branca a baixo preço.
O que me tem trazido curioso, e se calhar sou capaz de ir lá um dia destes, mesmo arriscando a vida e saltando o precipício como alguns conseguem fazer fora os outros que caem e nunca mais se ouve falar deles, o que me tem trazido curioso, para quem se tenha perdido nas linhas acima, é saber como é que eles conseguem fazer a tinta branca a tão baixo preço.
Vocês nem calculam, porque não devem ser da minha terra e só na minha terra é que há tinta branca a este baixo preço, o tão barato que é esta tinta branca. É uma pechincha, uma pechincha autêntica. Como será que eles conseguem fazer esse tão baixo preço?

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