Jonas, o reciclador

Todos nós sabemos que a reciclagem está na moda, na berra e etc. e que dizer-se hoje que se recicla o que quer que seja, normalmente os restos das merdas que se gastam em casa, é um sinal de consciência ambiental apurada, é assim como que um certificado de habilitação para o futuro, um pensamento conscientemente projectado para as novas gerações e assim sucessivamente.


Os putos e pitas aparecem na televisão, nas praias e praticamente em tudo quanto é sítio para fazer limpeza nuns casos às matas, para dar chás aos fumadores da areia ou para fazer propaganda a um conjunto de recipientes de cores variadas que servem para meter plástico, cartão ou vidro, não forçosamente por esta ordem, mas não esclarecem onde se mete uma coisa que tenha, por exemplo, 50% de vidro e 5o% de plástico vistos a olho.

Já o pilhão, então o pilhão é um must da nossa intelectualidade propagandística porque funciona assim como a pedra no sapato da nossa consciência: ele existe, o pilhão, mas nós não o vemos não porque ele não seja visível mas porque não nos esforçamos o suficiente para o ver: ou seja, se os recipientes de várias cores fazem parte do nosso dia a dia, se eles se impõem ao nosso olhar mais ou menos prescrutante, já o pilhão, esse depósito de carvão, mercúrio e outras coisas é o símbolo do nosso quase desinteresse: afinal, uma coisa tão pequenina, uma pilha, a mais ou a menos, a derramar-se no solo é uma gota de água comparada com as toneladas de CO2 que debitamos para a atmosfera devido a a este nosso mau hábito de tomar banho.

Mas o Jonas, que é quem me está a inspirar e contar indirectamente esta história acha que tudo isso é insignificante comparado com o seu trabalho de reciclagem...aliás, considera-se ele mesmo um reciclador histórico, de tradição familiar, de vocação, quiçá - diz ele - descendente dos primeiros recicladores que pisaram o solo terrestre logo a seguir à era do macaco e após essa gostosa mas poluente invenção do pipe (cachimbo) como melhoramento da esparsa emanação fumarenta dos tronquinhos de cheiro.

Segundo aquilo que o Jonas não diz mas quereria dizer se os seus neurónios acompanhassem numericamente a diversidade dos produtos que recolhe os seus antepassados terão acumulado toneladas de lixo em cavernas e não lhes é de todo alheio o facto de os cemitérios de elefantes estarem tão arrumadinhos.

O Jonas recicla tudo, afirma com orgulho (contagiante, devo dizer) e é vê-lo debruçado sobre os caixotes de lixo quer de noite quer de dia, em gestos e posturas que têm o seu quê de ginasial à mistura com poses verdadeiramente teatrais como quando confere e mira os filamentos de uma lâmpada contra a luz do dia como se erguesse o facho da estátua da liberdade ou como quando desaparafusa em gestos ritmados ao som de um imaginário blue um motor de um frigorífico despejado ainda novinho em folha.

Mas é em sua casa que a maravilha se junta: é vê-lo de olhos lacrimejantes apresentar resmas empilhadas de revistas, de jornais ao mesmo tempo que nos encaminha para aquilo que considera serem também jóias da sua coroa de reciclador: uma máquina de lavar "impecável", uma tv último modelo acinzentado, um rádio daqueles de botões que, este sim, pudemos ouvi-lo em onda curta porque trabalha com uma bateria com um cheirinho de voltagem. O resto do eléctrico não funciona porque ainda não se começou a deitar para o caixote do lixo a electricidade e a sua não é para gastar.

Nos confins do armazém repleto de tralhas preciosas está o seu sítio: um colchão daqueles de virar verão-inverno, uma mesa de cabeceira acadeirada e um lavatório, daqueles de jarro, em ferro forjado e de cor indefinida. São apenas 2 a 3 metros quadrados que ele ocupa na imensidão daquele armazém onde nos perdemos nas vistas de filas organizadas em monte onde se misturam fios de cobre, alguns cartões cuidadosamente dobrados das mais diversas máquinas, alguns ecrãs de computador e lâmpadas que perderam a fluorescência.

E há um cheiro indefinido, a roçar a pestilência e o cheiro de tintas, metal, plástico, bolor e papel, muito papel, imenso papelame, cartão ondulado e não ondulado, outro de cabeça para baixo (com up e o down trocados) mas tudo com a idade e o cheiro do pergaminho e na nossa esperança mística provocado pela expandida fé do Jonas não conseguimos evitar pensar na emergência de um ossudo faraó em esqueleto nu misturado com roupas suadas e muito sujas, cheias de restos de tudo aquilo que normalmente acompanha o lixo, porque o lixo nunca é um lixo limpo, impecável como aquele que desejariamos ver nas recicladoras e que se assim fosse até daria pena não levar para casa.

Por isso, para o Jonas, o pilhão, o ecoponto e tudo o resto, até às polémicas incineradoras são trabalho de recentes amadores que aliás critica fortemente. Não foi nunca consultado, ele, técnico superiormente qualificado no lixo de vidas inteiras, não contaram com a sua experiência, com o seu conhecimento, com as suas capacidades de triagem, com o seu conhecimento das necessidades do mercado do lixo nem com a sazonalidade dos mesmos.

Fosse ele a organizar as coisas e até a Quercus lhe erguia uma estátua diz-me bem convencido pelas leituras em n mão que faz dos jornais. Para o consolar compro-lhe duas rodas de bicicleta e uma atada de jornais diversos e quando saio o portão não consigo deixar de ouvir o seu risinho escondido entremeado de palavras."Lá embarretei mais um!"



Article ajouté le 2007-09-17 , consulté 205 fois

Commentaires


cappuccino le 14/10/2007 à 04:57:02
E foi assim que o outro ficou com o Nobel da Paz. Ele há gajos para tudo! LOL!

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