Quando eu fui raptado por extraterrestres

Era assim um dia a atirar para o normal, nem muito sol nem chuva, com temperatura a atirar para a zona dos vinte centígrados e isto em pleno Outono com folhas a caírem das árvores aos montões e para aí uma meia dúzia de nabos nos jardins a juntar folhinhas com aquelas pás que não são pás, assim com uns dentes de arranhar e cristalino assobio feliz, plantados quase geometricamente ao longo dos jardins gémeos que por sua vez distavam da estrada quase a mesma coisa em metros.
Havia um gajo que estava verdadeiramente desalinhado em relação aos outros, para aí um meio metro mas como assobiava rouco acabei por dar o desconto e nem sequer lhe chamei a atenção e continuei o meu caminho pelo passeio atapetado de folhas secas como o caraças e que já deviam pelo menos uma semana ao Newton das maçãs.
Nas árvores, agora semi-despidas, assim perto da humana e já tiritante calça e camisa singela, alguns pássaros teimavam em cantarolar de quando em vez, saltitando despreocupados pelos ramos como se para eles tanto se lhes desse ser Outono ou outra coisa qualquer.
Dentro de semanas e como as coisas iam, as árvores estariam verdadeiramente despidas de folhagem e eles, pássaros, se calhar lá continuariam na mesma mas aí mais atentos às velhotas e aos velhotes que levam pacotinhos de alpista, milho e outros cereais para despejarem pausadamente em lugares estratégicos com as mãos envoltas em luvas de lã grossa uns e tipo cabedal preto outros, isso depende.
Pois bem e deixando a descrição paisagística, que até não está má de todo, faltando os putos a berrar e as senhoras de carrinho de bebé, os polícias de guarda ao banco, as pessoas que vêm das Finanças, os modernos pedintes do euro ou do cigarrinho e mais alguns elementos do mobiliário urbanístico, como caixas de lixo, placards publicitários, cocó dos cães, dos pombos, etc. deixando tudo isto vou então entrar no meu rapto, no rapto da minha pessoa pelos extraterrestres dos quais toda a gente tem um medo terrível.
Os meus, aqueles que me raptaram, contrariamente ao tradicional nestes casos não desceram em discos voadores em processo descendente folha de papel, não deitaram luzes ofuscantes nem me chuparam por uma passerelle luminosa.
Aliás a coisa até foi mais simples do que seria de pensar e hoje lamento sinceramente não ter dado mais atenção aos apanhadores de folhas secas nos cercados. Aquele gajo que tinha um assobio rouco e que estava desalinhado na apanha das folhas era o chefe dos raptores e fazendo de repente uma alternância no som do assobio passou do grave ao agudo em fracções de segundo ao mesmo tempo que os restantes marmanjos se jogavam sobre mim vindos em desfilada cada um do seu quintal.
Traziam erguidas as forquilhas, jogaram-me ao chão e pregaram-me - é o termo - com os pontiagudos objectos ao solo, furando-me a aba do casaco, as pernas das calças e, por último, o chefe que devia ser chefe por ter mais pontaria acertou-me com dois dentes da forquilha nas calças na zona que mais dói em caso de falhanço e ali fiquei, indefeso e pouco estrebuchante não fosse a forquilha mestra tecê-las.
Depois não sei como as coisas se passaram. Tal como cem por cento dos raptados por extraterrestres eu também não me lembro das experiências que me fizeram e, facto curioso, todo o pessoal e não pessoal que passava na rua na altura, até um majestoso Labrador, um Caniche e um rafeiro vadio nada fizeram e nada sentiram e tudo se passou como se o meu rapto estivesse a ter lugar numa outra dimensão onde eu via o pessoal e o não pessoal mas eles não me viam a mim nem sequer os meus raptores.
Vi-me à rasca, como será comum nestas circunstâncias, ou mesmo noutras que envolvem a imobilização do personagem moi, salvo excepções que têm a ver com a exploração tântrica, e por ali me fiquei tendo a certeza que fui transportado para um nave, daquelas tipo navette, sentindo na face o bafo horrível dos extraterrestres e ouvindo risos esganiçados de vitória.
Voltei, segundo me disseram passados três dias e três noites, com os dentes re-arranjados com branca soldadura, dois parafusos e uma chapa na tíbia que tinha partido havia anos e que eles acharam estar mal reparada, uma catrefa de dinheiro e uma escritura de compra de uma vivenda de dois pisos com jardim alargado e piscina.
Onde eles me puseram o chip não sei e nem me interessa mais embora sinta que algo na minha cabeça faz interferência com a rádio do carro. Mas que foi horrível foi (!) durante o tempo em que guardo recordação.
Acho que os gajos se alimentam de alho cru e entre outras sensações desagradáveis senti que podia muito bem ter morrido logo ali ou mesmo ter "simplesmente" ficado incapacitado para a frequência normal ao urinol.
Esta é a minha experiência com extraterrestres, pouco recordada como será de entender, mas simplesmente horrível. Escrevendo estas palavras agora entre dois mergulhos e um cocktail pergunto-me porque não nos deixam eles - os extraterrestres - em paz?!

Commentaires
capuccino le 14/10/2007 à 04:54:28Dá-lhes o meu endereço, já que estás servido e eu não me importo da interferência com o rádio no carro... até porque só oiço mp3!!!