A menina do baloiço

 


 Todos nós, mesmo aqueles que o não confessam, gostam de recordar a infância e por acaso e mesmo sem ser por acaso apenas se recordam os bons e os mesmo maus momentos. Uma diferença essencial se coloca aqui, que é uma coisa que faz parte do recôndito comportamento da nossa psique: os bons momentos que recuperamos vivem em dois campos distintos da nossa memória conforme explico em seguida.
 
  Há os momentos mesmo bons, aqueles que são verdadeiramente inesquecíveis, aqueles que nos marcam ainda e que entram por vias travessas no nosso presente, ainda que de forma alegórica ou apenas como memória enquadradora de comportamentos que vamos tendo ainda hoje e os momentos que tendo sido bons (ou que pelo menos não foram maus) apenas despertam do seu limbo vivencial quando algo se passa neste nosso tempo que faz a devida ligação entre esse momento e o acontecimento presente.
 
  O despertar dessas recordações é assim como que um momento mágico que nos faz sentir como que renovados e nos faz enriquecer o nosso presente momento com uma comparação com factos passados na nossa infância, mas não só.
 
  E não só porque a recordação da infância, nestes casos, supera a riqueza do momento presente e transporta-nos para uma visão mesclada desse momento presente com uma forte componente memorial. Aquilo que nos acontece hoje não deixa de ser visto nos seus limites actuais, mas a prevalência da actividade cerebral é dada à imagem que temos passada na nossa infância.
 
  Muito pouca gente repara nisso, é preciso estar preparado para pensar e sobretudo é preciso gostar de pensar e não fazer disso, do pensamento, um género de profissão, uma coisa deslavada sem sentimento nem gosto, quase científica, sem a componente afectiva que tanta falta faz.
 
  Ora, depois deste longo intróito vamos à menina do baloiço: coisa simples, que mereceu neste caso um excurso alongado porque não interessa saber sobre aquilo que se reflecte mas sim interessa o resultado da reflexão, a forma, o empenhamento...pode reflectir-se sobre as coisas mais insignificantes (que não é o caso agora!) desde que a reflexão seja rica ou que pelo menos o tente ser.
 
  É uma actividade que se encontra muito pouco neste nosso mundo do meia bola e força mas devo confessar que é gratificante, extremamente gratificante. Há dias, não muitos, passei por um parque infantil daqueles que algumas autarquias vão colocando no meio dos espaços verdes das cidades e, ao reparar na menina do baloiço lembrei-me, como se de um flash se tratasse, da Gracinha.
 
  Não conheceram a Gracinha mas ela era verdadeiramente uma gracinha de miúda: pequenota, de cara bem traçada, de olhos azulados, loura e com lindos cabelos compridos, extremamente branca, sempre um pouco distante mas sempre perto, ao mesmo tempo, foi por causa dela que eu - criança sovina - gastei o meu primeiro dinheiro sem ser comigo mesmo. Ofereci-lhe um gelado, o que actualmente não é extraordinário, mas que no meu tempo tinha o seu significado.
 
  Não tanto pelo valor da oferta, que era e é relativamente barata, mas pelo gesto e por aquilo que ele representou para mim. Oferecer um gelado à Gracinha foi assim como que uma honra que ela complementou aceitando. A coisa teve de ser pensada, falada e depois é que se fez a compra.
 
  Uma catrefa de putos, como eu era, teria "arriscado" comprar o gelado e depois ir oferecê-lo à Gracinha e se ela, por qualquer razão, não o aceitasse, tentaria ficar numa boa comendo-o ele mesmo com um encolher de ombros. Mas eu não fiz isso: convidei-a para comer um gelado, ela escolheu à sua vontade e eu limitei-me a pagar o dela e o meu.
 
  Foi de facto uma honra para mim ela ter aceitado que eu lhe oferecesse um gelado, mas mais honra ficou a ser porque ela, a Gracinha, ou já gostava de mim ou ficou a gostar de mim. Coisas de putos, coisas sem importância, ainda longe da puberdade e ainda em processo de imitação daquilo que os mais velhos faziam. Nada nas mangas, portanto!
 
  Ora naquele jardim, onde brincávamos, havia um baloiço, uma coisa tosca porque nesse tempo não se perdia tempo com essas coisas. Os homens grandes tinham mais que fazer e o baloiço era uma corda com assento em pedaço rectangular de madeira furada nos dois lados. A corda, por sua vez estava atada ao braço de uma árvore.
 
  E a partir daí, e durante algum tempo, era eu quem empurrava a Gracinha no baloiço. Era trabalho fácil porque ela desde logo ganhava balanço, mas eram momentos quase sacramentais. Ela sentava-se com o seu vestidinho normalmente branco com pequenas flores e os primeiros empurrões, e únicos, eram dados por mim e isso tinha um significado enorme porque eu também gostava da Gracinha. Aliás, penso que não havia quem não gostasse da Gracinha.
 
  E durante não sei bem quanto tempo eu empurrei a Gracinha e ofereci-lhe gelados com alguma frequência: outras vezes ela mesma os comprava mas nunca a vi receber um gelado oferecido por outro puto. Fui só eu e era só eu que lhe empurrava o baloiço.
 
  O que aconteceu depois não interessa: o tempo é um estragador de edílios e o facto de nós crescermos estraga também muita coisa. Mas lembrei-me disto nesta tarde em que passei perto de um parque, todo catita, diga-se, com escorrega e meia dúzia de cavalinhos e outros animais de molas espalhados pelo rectângulo.
 
  Talvez a Gracinha tenha sido o meu primeiro amor num tempo em que ainda não pensava em amor e isso para mim conta. E conta o facto de me ter lembrado disso ao ver o parque vazio...é perfeito o parque mas falta lá a Gracinha cuja imagem eu vi baloiçando com o seu vestido de florzinhas.



Article ajouté le 2007-09-22 , consulté 379 fois

Commentaires


Gracinha le 15/10/2007 à 16:11:48
Olá, eu sou a Gracinha...e tu quem és?!
crayon site : crayon.blog4ever.com/blog/index-137542.html | le 16/10/2007 à 16:10:04
Se tu fosses a Gracinha sabias quem eu era...
Gracinha-não le 12/12/2007 à 17:54:47
Foi forte, essa paixão, hein!!

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