O que é um milagre


 Eu não acredito em milagres mas, como todo o ser humano que se preza, desejo sempre (ou quase sempre) que um milagre ou outro tenha lugar. Por vezes os milagres desejados por mim são mais ambiciosos (ganhar o jackpot do euro milhões, por exemplo) ou simplesmente mais fraquinhos, menos impossíveis de concretizar - naquela regra de probabilidades que nós inserimos em cada milagre desejado - corriqueiros até, nalguns casos, e será sempre uma questão subjectiva saber-se se se deseja mesmo um milagre ou apenas uma convergência causal de factos que levem ao fim desejado.
 
 "O milagre", de Eça de Queiroz, que é o único que me vem desde já à cabeça, servirá aqui para exemplo daquilo que eu entendo serem as probabilidades que têm de estar subjacentes para que o milagre tenha lugar: no caso do doentinho que clama pela visita de Jesus de Nazaré, o escritor vai-se encarregando ao longo do seu conto de ir colocando entraves à possibilidade de o milagre vir a ter lugar: ou seja - e isto é muito importante - o que Eça de Queiroz faz aparecer (no seu conto) não é um milagre qualquer, daqueles que têm lugar sem qualquer explicação e que depois se começam a denominar de milagres porque não existe, precisamente, essa explicação para o acontecido.
 
 O milagre de Eça de Queiroz é um milagre construído sob a forma de explicação à priori: tivesse Jesus aparecido pura e simplesmente ao menino que solicitava a sua presença e tratar-se-ia de um daqueles milagres quase sem autor (declarado, pelo menos) e cujo evento seria atribuído por exclusão de partes e segundo as perspectivas religiosas ou ideológicas. Vamos dar um exemplo, deste tipo, dos mais simples que há. "Foi um autêntico milagre o vaso caído do 20º andar não lhe ter batido na cabeça!" por exemplo.
 
 A quem atribuir este "milagre"!? Trata-se, como é claro de uma conjunção e factos que leva a que se considere de milagre aquilo que é apenas uma conjunção de factos, favoráveis, sempre, nunca há um milagre que seja desfavorável. "Foi um milagre o gajo ter partido uma perna!", embora se pudesse utilizar, tinha de ser comparativamente: "Foi um milagre o gajo ter partido uma perna e não as duas!" por exemplo. Ora, as conjunções de factos não são milagres mas sim...conjunções de factos.
 
 O milagre, a existir, ou a poder afirmar-se, nestes casos, teria de basear-se no facto de não ter tido lugar uma outra conjunção de factos, aquela que levaria o tal vaso caído do 20º andar a ter caído directamente sobre a cabeça do "miraculado"! Ora, um vaso quando cai de um 20º andar, para já, é um acontecimento raro: a passagem de pessoas sob a trajectória provável do dito vaso é também um elemento circunstancial. Se for um local de grande passagem de pessoas as probabilidades de o vaso vir a cair em cima, ao lado, ou após a passagem da pessoa aumenta.
 
 Mas, em certo sentido, todas estas variáveis estão para além da nossa vontade ou da possibilidade de as controlarmos, por isso se utiliza o termo milagre, porque factores exteriores a nós influem no acontecimento ou no não acontecimento. Espero ter-me feito entender nesta tentativa de destrinça entre o milagre acontecido e o milagre construído que é o caso do Milagre de Eça de Queiroz.
 
 Primeiro, e se bem se lembram (e se bem me lembro eu) a mãe do menino carente da presença de Jesus vai sistematicamente eliminando as possibilidades de Jesus da Galileia aparecer na sua pobre cabana, onde ele, criança exangue, se extingue desta vida. E fá-lo de uma forma que estabelece relações de poder: ou seja, Jesus não foi aqui e não foi acolá, sendo esses desejantes poderosos e / ou ricos, porque razão seria de esperar que ele fosse ali, a uma pobre cabana, situada num ermo, de gente pobre, mesmo estando lá um menino crente em fim de vida?
 
 Por isso (por Eça) é dado um carácter não aleatório ao milagre: ele acontece precisamente porque deve acontecer, e logo, não se trata de um milagre, mas sim de uma conjunção de factos. Ora de conjunções de factos está este nosso mundo cheio e nem a todos se pode chamar (mesmo alegoricamente) de milagres.
 
 O que eu quero é mesmo um milagre, naquele sentido puro, em que acontece porque acontece e se basta a si mesmo na explicação, tipo axioma e em que só se possa subentender ter havido "mão divina", porque é impossível que tenha havido outra mão qualquer, mesmo que tudo não resulte de uma conjunção de circunstâncias desconhecidas.
 
 Por isso o Eça não descreve um milagre: apenas inventa uma forma de dar a Jesus uma característica de amor aos pobres e em última análise o abstracto carácter aleatório da sua acção.

 



Article ajouté le 2007-10-01 , consulté 292 fois

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