Uma questão extra-sensorial

Normalmente este título mete pelo menos os cabelos da curiosidade em pé. Nada mais interessante existe que conhecer os novos super homens ou as novas super mulheres, os sofisticados heróis que não utilizam a força bruta do rochoso e verdoso Hulk nem andam naquelas cansativas mariquices das Tartarugas Ninja ou outros ninjas de gritinhos esganiçados e posturas físicas de ataque que qualquer ser consciente sabe que se desfazem com um bom murraço no focinho.
Nada disso, os heróis extra-sensoriais, normalmente encapotados pelo menos parcialmente de uma dose razoável de autismo contam os palitos tombados de um pacote em fracções de segundo e sempre antes deles todos chegarem ao chão, intervêm sabem eles como (eu não sei!) nos sofisticados circuitos electrónicos, invertem processos matematicamente calculados e colocam pinças mentais em temporizadores sem estes se aperceberem, o que eu acho bem dito porque eles nunca se poderiam aperceber uma vez que são máquinas, feitas de lata, plástico e fiozinhos.
Pois eu, que não acredito nada nestas histórias da extra - sensoriabilidade, que é, em rigor uma sensoriabilidade que está para além da sensoriabilidade possível nos humanos mais tacanhos, vejo-me há dias confrontado com um fenómeno destes em minha própria casa e de minha não alegada extra-autoria.
Tendo comprado um teclado na loja dos chineses, naquela do porquê dar 20 euros se posso só dar 5 acompanhada de uma fé até agora inabalável no ser humano, chego a casa e reparo que algumas letras estão trocadas na sua ordem normal do qwert o que me deixa desde logo extra-chateado comigo mesmo.
Deveria ter visto - digo para mim mesmo - que estes chineses até trocam o "r" pelo "l" quando falam, mas após uma análise mais atenta verifico que o problema tem solução parcial: são as cabecinhas de plástico que estão mal colocadas nuns casos e faltam mesmo noutros casos.
Vá de ir ao ainda existente (no caixote do limpo lixo caseiro) teclado antigo e vá de retirar as cabecinhas em falta. Fiquei com um excelente teclado a branco e preto nas teclas e fiquei contente comigo mesmo e com a minha capacidade de extra - desenrascanço não extra-sensorial. Este só veio depois.
Passados alguns dias tive necessidade de usar os sinaizinhos < e > e por mais que procurasse eles não estavam lá, nem a tecla respectiva, que, para quem não sabe deveria estar colocada do meu lado esquerdo, junto à tecla do shift.
Pesquisei, como penso que toda a gente faria, um caracter algures colocado como terceira opção não visível numa tecla, encontrei uma séria delas repetidas mas nada dos sinaizinhos desejados. Desesperado invectivei o meu amigo Mao Tsé Tung e fiz-me de imediato partidário do Lin Piao, cuja derrota política e trágica morte lamentei ao mesmo tempo que dava alguns soquinhos no tampo da secretária.
E foi então que tudo aconteceu: o meu cão - a quem ou a quê (em inglês) eu não atribuo grande inteligência, não por ser parvo mas porque é cão e porque para me aturar há anos tem seguramente de fazer uma permanente limpeza suplementar aos neurónios - salta-me com as patas em cima das pernas, coloca a ofegante boca perto do meu ouvido esquerdo e, sem se preocupar em segredar-me diz-me numa voz que me ensurdeceu por segundos:
"Ó camelo!! Vais aos tipos de letra, escolhes os símbolos e fazes teclas de atalho!!"
Depois, escondendo a gargalhada que se lhe desenhava na rouquidão das entranhas deixou-me de dedos e cabeça entregues à sua revelação, abocanhou a trela que estava à entrada, abriu a porta e esperou pacientemente cerca de cinco minutos para me ir passear.
Não posso de todo afiançar - porque não levei régua e esquadro - mas estou convencido que ele levou o percurso todo a dar voltinhas em forma de "v" deitado.

Commentaires