Conto sem Natal

Conto sem Natal

 

Para contar nestA época um bom conto de Natal é preciso, antes de mais, não ter ideia nenhuma sobre aquilo que se vai escrever partindo do princípio simples de que, se estamos em época de Natal, necessário é que aquilo que nos sai da cabeça para o teclado ou para a caneta terá de ser algo infalivelmente natalício.
 
 E isto porque é praticamente impossível fugir-se ao espírito natalício. Mesmo fechando portas e janelas, mesmo que nos isolemos num deserto qualquer ou induzamos um coma caseiro, o facto é que haverá sempre algo ou alguém que nos fará lembrar esta fatalidade natalícia e quando digo fatalidade é porque refiro um acontecimento ao qual, conforme já meio expliquei atrás, se não pode fugir.
 
 Há todo um conjunto de coisas às quais não podemos fugir, isso sabe-se, ao processo de crescimento e de envelhecimento, ao processo de nascimento, à morte quase como corolário lógico - metafórico aqui, etc. Enfim, não vou apresentar mais exemplos porque a tese que defendo é que no meio destas coisas todas que se passam ou que existem e às quais não podemos fugir há uma (pelo menos) à qual não pudemos fugir mas desejamos fugir e pensamos sempre que é possível fugir: ao Natal.
 
 Desejamos não morrer, não adoecer, não envelhecer, não crescer muito ou crescer mais depressa, consoante os casos, mas essas coisas e outras do mesmo género que cabem dentro do mesmo campo, são coisas que desejamos e que sabemos, implicitamente, que não vão acontecer pelo menos na totalidade daquilo que desejámos.
 
 Mas já no que se refere ao Natal todos estaremos de acordo que é - pelo menos teoricamente - viável fugir-se ao Natal, ao espírito natalício, fechar-se em casa, isolarmo-nos, aldrabar o calendário, sei lá...há todo um conjunto de soluções que dependem da nossa vontade, que estão sob o nosso domínio e que nós queremos colocar em prática e não conseguimos.
 
 E não conseguimos não por nossa culpa toda inteira, diga-se, mas porque estando nós inseridos em sociedade necessário seria fazer um corte memorial com essa mesma sociedade, uma cesura daquelas radicais, uma conversão religiosa, qualquer coisa que através da disciplina (mesmo religiosa) nos obrigasse a ignorar o Natal mas, mesmo aí, tenho as minhas dúvidas que a coisa resultasse e tenho quase a certeza de que a coisa não resultaria.
 
 A inevitabilidade do Natal é assim...uma inevitabilidade: mesmo o mais desgraçado mendigo é atormentado pelo Natal porque as pessoas estão mais abertas nessa altura, dão maiores esmolas, oferecem ceias de Natal, abrigo contra o frio e tudo o mais.
 
 O mais refinado e cínico forreta anual chega ao período de natal e oferece um maço de cigarros a um mendigo que estaciona num portal de sua rua quando durante todo o ano faz coisas do arco da velha como passar fumando charuto ou cigarrilha na maior das calmas perante o mesmo mendigo sedento de uma passa.
 
 O blá-blá escolhido para a tentativa de fuga ao Natal é no entanto sempre o mesmo: "Este ano não dou ofertas a ninguém!", "Quando der a meia-noite vou estar em vale de lençóis!" etc. etc. Mas, o melhor sistema, quanto a mim, para fugir ao "espírito de Natal" é mergulhar nele a fundo e dar - lhe a volta em altura própria.
 
 A operação é delicada, em termos psicológicos e temos de ter todo o cuidado em não nos deixarmos contaminar pela sinuosidade do processo o que requer aquilo que em inglês se chama de "guts" e que nós sabiamente traduzimos por "tomates" naquela acepção tão machista que faz com que nenhuma mulher possa ter "guts"!
 
 Para o efeito, fazemos tudo como se estivéssemos coniventes com o acontecimento a acontecer e que vai acontecendo progressivamente à nossa volta. Levamos o nosso cinismo ao ponto de comprar coisas embrulhadas em papel decorado e com lacinhos, coisas essas que sejam para nosso consumo próprio: cuecas, peúgas, livros, cd's, etc. e para que não restem dúvidas passeamos esses mesmos embrulhos pelos locais do nosso costume de preferência várias vezes.
 
 Pelo menos uma garrafa de vinho é ainda aconselhável comprar-se e mesmo uma embalagem de bacalhau, um frasco de grão, uma garrafa de azeite e uma couve flor no penúltimo dia, a 23 de Dezembro que é quando estão mais caras. A resposta às perguntas tradicionais também deve ser estudada: vamos sempre passar o Natal com a família mas nunca referimos em concreto qual o ramo da família.
 
 Depois, bem, depois, chegado o dia 24 para 25 fazemos uma jantarada de um congelado qualquer que tenhamos em casa, isento de bacalhau, de couve flor, de grão, etc. Pode ser daquelas embalagens de arroz de ir ao micro ondas, desligamos o telefone, metemos um vídeo a rodar e metemos os pés em cima da mesa fronteira ao sofá.
 
 Por último, nas proximidades da meia-noite, metemos tampões nos ouvidos não vão as renas abanar os guizos em frente à nossa porta estragando assim o nosso tão trabalhado não -Natal e deixamo-nos embalar dormindo de preferência no sofá até pelo menos às 4 horas da madrugada. 
 



Article ajouté le 2007-10-12 , consulté 238 fois

Commentaires


capuccino le 14/10/2007 à 04:46:44
Tá gostoso o teu blog!
Também gostei do não-natal e sofro da mesma enfermidade.
Bom domingo!

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