Sobre a penosidade

Esta coisa de estar de férias tem as suas vantagens mas tem também, e penso mesmo que em maior medida, as suas desvantagens. Para uma pessoa como eu, caso não único certamente, quando apetece estar de férias é na altura em que se está a trabalhar e quando nos apetece não estar de férias é quando temos de estar de férias, porque trata-se, pelo menos a partir de uma dada altura das férias de praticar uma obrigação que é a obrigação de estar e continuar de férias.
Pelo contrário - por muito que arredemos esta ideia má que vou referir - quantas vezes, durante o ano (de trabalho) acordamos penosamente e ainda na cama dizemos: "porra, hoje não me apetecia mesmo nada ir trabalhar!". Mas temos de ir, mesmo que o trabalho esteja todo entrançado, que tenhamos vontade de passar pelo contentor e arrastá-lo connosco até ao 10º andar (mesmo pelas escadas para não fazer cheirar ainda mais mal o elevador) e chegados perto da secretária abraçar todo o papelame, em várias dobradelas da espinal medula e colocando as mãos em pá, e enterrar tudo o que estiver sobre a secretária dentro do dito contentor do lixo, separando é claro as coisas de forma a cumprir as boas regras da reciclagem...
Mas não podemos, é claro. Sentamo-nos ainda mais penosamente do que nos levantámos da cama, começamos a atirar clips com a esferográfica contra tudo o que apareça e já lá esteja na sala, fazemos bolinhas de papel e jogamos o basquette amontoando falhanços na carpete e olhamos ansiosamente para o relógio que parece estranhamente trabalhar sempre mais lento nesses dias.
Eu já contei que num dia normal de trabalho, com trabalho que dá algum gozo, uma encestadela tem mais hipóteses de sair certeira em cada milhar numa proporção de quase 50/50 contra cerca de 10/90 nos dias chatos. Por outro lado a projecção de clips quando do impacto é nitidamente mais melodiosa nesses dias do que nos outros, nos dias chatos, o que acho que deveria ser estudado de uma forma aprofundada porque se trata de reacções subjectivas sobrepondo-se à objectividade dos factos uma vez que os elementos materiais em jogo são precisamente os mesmos só mudando a nossa íntima e pessoal disposição ou humor.
Por isso eu acho, e penso que posso ser seguido por uma multidão de adeptos que pensam certamente como eu, que as férias (e o trabalho) deveriam ser quando nós quiséssemos: um belo dia, estando a trabalhar (em período de trabalho) ou de férias (em período de férias) uma pessoa deveria ser livre de decidir por si se ia ou não trabalhar ou se continuava ou não de férias.
Porque a realidade é esta, não temos nada que esconder estes factos já abundantemente estudados: o trabalho com alegria, com gosto, tem uma mais elevada produtividade. Por outro lado, e inversa e lamentavelmente, as férias contrariadas têm um maior desperdício e não funcionam como aquele retemperar que deveria fazer parte da sua função e apenas faz parte dessa função nominalmente.
É claro que haverá quem - fazendo jus a algum reaccionarismo que ainda vive latente na nossa sociedade ofuscada por 50 anos de obscurantismo - que haverá, dizia eu, quem afirme desde logo: "O que este gajo quer é mama: quer transformar o sistema de 99,9% de trabalho em 99,9% de férias" e por último haverá quem diga que isso iria ter repercussões no vencimento mensal, na produtividade, nas contas do défice público, etc.
Nada mais errado e tendencioso, como me parece claro: se virem de novo o início do texto que agora vou ter de acabar, eu estou de férias e quereria ir trabalhar. Não se trata de ver ao contrário...eu estar a trabalhar e querer partir de férias. Acho que está assim provado que a produtividade da minha empresa aumentava, ainda que esteja a ver só o dia de hoje.
Aliás devo acrescentar que este cesto de papéis em minha casa não tem condições de encestamento que se pareçam com aquelas que tenho no escritório...

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