Ideia rotativa sobre as máquinas de lavar

 Ideia rotativa sobre as máquinas de lavar


 
 Eu sei que o título que dei a este trabalho é demasiado pomposo e por si só sugere o seguimento, nestas letras, de uma seca científica, com notações e apuds dos mais diversos nobelizados e o acrescento de uma daquelas muito extensas bibliografias que baralham as mentes e levam as pessoas a pensar que se leu de facto tudo aquilo que se escreveu na lista.
 
 Mas nada disso se vai passar porque eu não deixo e aliás nem sequer uso esse inteligente esquema embora o pudesse fazer porque na maior parte dos casos ninguém liga senão para abrir a boca de espanto àquilo que se acrescenta no final do trabalho referindo autores, obras e até editoras e edições, faltando em todos os casos, infelizmente, a referência ao preço da obra, saber se ela foi emprestada, alugada, etc.
 
 No entanto, e conforme já disse isso não vai acontecer porque o meu método de pesquisa, reunião de elementos, dissecação dos mesmos, verificação de similitudes e discrepâncias e posterior construção da teoria obedece a princípios únicos, bastante mais económicos do que aqueles que são utilizados pela decrépita física da velha escola.
 
 Está tudo na tolinha e nada precisa de ser comprovado porque tudo se impõe pela evidência  conclusiva. É simples, como vêm, como resumo e apresentação do resultado, mas o experimento, o acto de testar, em si, sendo feito com a imaginação obedece a regras probatórias rígidas e a uma constante conferência de valores, tensões e frequências neuronais.
 
 Mas este trabalho, que se irá desenvolvendo, tem por base a dissertação sobre a decrepitude da ciência moderna, que, apesar de apresentar e se valer de tecnologias de ponta, falha estrondosamente quando tem que se confrontar com a evidência da necessidade da demonstração, como é o caso do recente bombardeamento do cometa Tempel 1.
 
 Ora, o referido cometa foi bombardeado, é o termo, como se sabe, mas antes de ser bombardeado foi veiculada a informação de que o projéctil que o ia atingir, com intuitos agressivos para ele, coitado, mas com intenções científicas da parte daqueles que vulgarmente chamamos de humanos, que esse projéctil, repito, seria do tamanho de uma máquina de lavar e isso para mim foi motivo de estranheza científica e mesmo antropológica.
 
 Porquê, de um lado, atingir o pobre do cometa foi coisa que eu ultrapassei rápido colocando em marcha a ideia corriqueira de que era a bem da ciência, mas na questão da máquina de lavar emperrei no processo e vi-me a colocar a mim mesmo a questão de saber porque teria sido escolhida como ideia comparativa a imagem que todos temos de uma máquina de lavar.
 
 De facto, nada mais absurdo do que relacionar um projéctil com uma máquina de lavar: rectangular por natureza, não se coaduna com a ideia que temos de um projéctil, fusiforme também por natureza. Por isso, porquê a máquina de lavar?
 
 Para poder retirar alguma conclusão deste aspecto tive, como é claro e de forma imaginária de calcular o esforço que despendo cada vez que preciso de mover a máquina de lavar (que está na minha cozinha, virada para um balcão debruçado sobre uma bem frequentada estrada) e calcular assim o peso do projéctil. Era pesada, de facto, com o seu lastro para segurar a centrifugação ao solo, mas nada que se não aguente...depois, bem depois, e adquirido o sentido do peso, virei-me para a ideia da forma e aqui confesso que me vi à rasca.
 
 Não era para mim imaginável um tubo lançador quadrado e isto porque por princípio os projécteis têm dois movimentos: um de rotação, adquirido pelo estriado do cano e um outro de translação, que é aquele que o impulsiona na direcção desejada. Mas, e aqui bate um dos pontos importantes, os dois movimentos, o de rotação e o de translação são complementares.
 
 Ou seja, e para quem não percebe disto, se não houver movimento de rotação dificulta-se o  movimento de translação, requere-se uma estrutura mais rígida e logo mais pesada para o próprio projéctil em si e ao mesmo tempo reduz-se singularmente a sua velocidade porque se estabelece uma relação diferente entre peso intrínseco e velocidade desejada.
 
 Por isso, porquê uma máquina de lavar como exemplo? Ainda pensei nas possibilidades dos programas de lavagem com ou sem pré-lavagem, cores delicadas, enxaguamento, no botão das temperaturas, no voltear do cilindro interior e na visão da roupa enrolada girando a velocidades loucas e fui ao ponto de admitir chamar de computador o microprocessador do painel de possibilidades (um, dois, três, muitos) de uma máquina de lavar.
 
 Decididamente esta coisa confundiu-me e não encontro resposta para ela.



Article ajouté le 2007-10-22 , consulté 241 fois

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