As mãos no corpo

As mãos no corpo
Deitei-me ao lado dela e lentamente fui deixando descer uma mão e depois outra. Podia ter feito descer as duas mãos ao mesmo tempo mas não (!) fiz a coisa desta forma porque achei mais apropriado dado que era a primeira vez que estava deitado ao lado dela. As primeiras vezes devem ser sempre assim - pensei eu - já não me lembrando muito bem se nas outras primeiras vezes, com outras, a coisa tinha corrido da mesma maneira.
Eu sei que não vão achar isso muito importante, saber se deve "deixar descer lentamente as duas mãos" ao mesmo tempo ou uma de cada vez, mas eu gosto de esclarecer as coisas até porque esta tolinha (bem proporcionada, diga-se!) tem de ter as coisas bem esclarecidas antes de avançar, ou descer ao longo dela, neste caso.
Pois bem, as duas mãos seguiam uma e outra a uma distância que eu considerei razoável, para as circunstâncias já antes descritas (ser a primeira vez e etc.), mais ou menos com um intervalo de vinte centímetros, vistos a olho, é claro, mas sem ter o olho lá porque tudo se passava debaixo de um manto, azul, por sinal, e com umas engraçadas bolinhas mais claras que faziam lembrar uma noite estrelada de dia.
Os tempos de descida das mãos foram também calculados de forma a que a respectiva distância entre elas (os tais vinte centímetros vistos a olho sem olho) representassem no fim do percurso o mesmo valor em tempo. Ou seja, e para quem não está a ver bem a situação, o meu objectivo era fazer com que a minha "primeira" mão, ao atingir o objectivo desse tempo de espera à outra para o caso de haver alguma acção de rejeição, recolhendo-se assim a "segunda" num ápice.
Ora, como todos sabem, fazer com que uma mão toque num dado sítio, de um corpo feminino neste caso, não é o mesmo que fazer com que duas mãos toquem em dois dados sítios de um corpo feminino. A ideia de "um descuido" é mais razoavelmente aceite quando se trata de uma só mão do que quando se trata de duas mãos.
Para além do mais lançar duas mãos, mesmo lentamente, tem conotações com o conceito de objectivação do objecto ao qual são lançadas as duas mãos: com uma mão toca-se, com duas agarra-se, é assim que eu vejo a coisa. É claro que também se pode agarrar com uma só mão porque, salvo casos excepcionais, as mãos têm cinco dedos cada uma e entre os dedos flectidos pode-se agarrar, por exemplo para dar um beliscãozinho, daqueles pequeninos que funcionam por vezes como uma sugestiva provocação.
Mas o que interessa aqui é o princípio geral: uma mão tem mais escapatória para uma desculpa do que duas mãos. Como não deve haver muita gente interessada em exemplos de desculpas vou continuar a história mas sempre digo que a melhor de todas, a campeã olímpica das desculpas, é um gajo fazer que está a dormir...essa é mesmo a recordista mundial.
Pois bem e regressando às mãos e ao corpo (isto não vai muito longe, não pensem em ficar escandalizados desde já) a coisa, a mão mais concretamente, já tinha nesta altura descido até uma posição razoável e estava situada à altura do ventre, descendo sub-repticiamente ao longo do lençol. Faltava-lhe a parte mais difícil que era a aproximação em diagonal, de preferência, com um movimento elevatório correspondente aos cerca de trinta / quarenta centímetros de altura do corpo naquela zona (isto medido também a olho sem olho).
Pois bem, nesta altura da descrição a segunda mão deixa de ser importante e vamos ter de esquecê-la para libertar espaço psicológico para o desenrolar (rápido mas lento) dos acontecimentos. Fui levantando a mão, e o braço, pois que sem braço a mão não subia, ou podia subir desde que fosse utilizado o sistema da escadinha com os dedos, mas como devem compreender todos os efeitos desejados tanto para a fuga como para a surpresa iriam abaixo neste último sistema, o da escadinha dedal.
Eu estava disposto a sofrer um bocado porque sei, por experiência própria e através de abundantes consultas bibliográficas, que havia a possibilidade de eu, ao tocar no corpo da mulher, receber sempre uma recusa, um afastamento, um chega p'ra lá. Muitas vezes isso acontece porque acontece de forma definitiva, a que vulgarmente se chama de tampa irrevogável, mas também se pode dar o caso de se tratar apenas de uma espontâneo acto quase reflexo de pudor, uma recusa que não significa de facto uma recusa, no sentido mais elaborado do termo.
No fundo qualquer pessoa (a maioria delas) foge a sete pés de dar a ideia da facilidade, de ser uma pessoa fácil, sensível a qualquer aproche e isso é de respeitar mesmo que se saiba ( por sinais dela que só os outros conhecem) que o desejo é mais que muito. Mas essa barreira tem de ser ultrapassada senão nicles...
Por isso, ganhei mais energia na ideia, e na mão, e coloquei-a de forma quase ultrasónica sobre o ventre dela e o resto não vou contar, porque faz parte da minha intimidade, e posso acrescentar, da intimidade dela também (ainda que aqui seja descrita anonimamente nunca se sabe) mas o processo está bem descrito na minha opinião, que é afinal o que me interessava desenvolver. Só lhes digo que "foi de gritos"...

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