A Royalnec

A Royalnec
 


 Calmamente, pois não havia razões para ter pressa e nem sequer a pressa era o desejado numa situação daquelas, acariciei o bojo deslizante e quase mentalmente contei a quantidade de pequenas irregularidades quase milimétricas que se diluíam no todo harmónico do corpo.
 
 Eram milhares, tinha-me eu apercebido assim que que lhe joguei com mais uma direccionada atenção o olho e depois ambas as mãos mas estavam de tal forma bem ordenadas no espaço arredondado que se diria que eram imperceptíveis ou que, pelo menos não eram relevantes enquanto elemento de distúrbio no cálculo sensível da harmonia.
 
 Era bem branco todo o corpo, e não só o bojo traseiro que eu acariciava, era mesmo todo o corpo, como se fosse de uma só cor, cortado aqui e ali por sombras. Dele, desse corpo, começou então a emanar uma lenta mas expressiva brisa cujo odor perfumado se confundia com o suado do meu corpo.
 
 Tinha tido muita preocupação momentos antes e mesmo momentos antes desses momentos antes ao pensar, dentro daquela insegurança que penso ser natural, que a coisa não funcionasse. Afinal era a primeira vez que eu me metia numa tarefa quase em esperança, e nas outras vezes ela não se tinha mostrado de todo fácil em operações mais rotineiras, requerendo quase sempre novas tentativas e escondendo, a maior parte das vezes, o jogo da sua necessidade.
 
 Pregara-me, ao longo do tempo, muitas partidas, daqueles às quais se acha pouca graça imediatamente mas que se perdoam sempre na esperança de que o desejado venha a acontecer. E no caso dela acontecera quase sempre para não dizer desde logo sempre.
 
 Mas, retomando o fio à conversa, finalmente ali estava ela, deliciosamente fresca, bem mais fresca que eu, mostrando-me que tudo era possível desde que fosse mesmo possível. Tinha-a comprado em Espanha, numa dessas minhas aventuras de jovem em que me metia no carro e andava, andava (dentro do carro, é claro) percorrendo as estradas da Andaluzia e vendo os imensos touros sustentados por vigas metálicas e cobertos a chapa da Pedro Domecq espalhados pelos cimos dos montes e descaracterizando a paisagem.
 
 Mas nesse tempo eu não ligava a isso da descaracterização da paisagem e contava os touros e sentia a falta deles de tantos em tantos quilómetros. Não terei eu sido o único a protestar junto da empresa por faltar um touro ao quilómetro 225,4 da Estrada nº 116 que é a Carretera nº 116 em Espanhol, por exemplo. Pois hoje esse touro hoje está lá, asseguro!
 
 Nunca recebi resposta às minhas muitas reclamações mas confesso que sei que o desejo de ver a minha reclamação satisfeita me levava a ver, quando da viagem seguinte, um touro, igualmente enorme lá no sítio onde eu tinha escrito e apontado à empresa que ele estava em falta: se trazia companhia perguntava ansioso: "Viste o touro?" e esperava sempre por uma resposta positiva.
 
 Tinha de ser positiva a resposta e era-me difícil admitir um ignorante "Qual touro?" vindo de um rosto ensonado, ou mesmo de uma distraída companhia que levava o caminho todo a mudar os postos na rádio ou a meter cassetes.
 
 "Passodoble, Olé!" uma ova, o que me interessava era o touro, o imponente touro, com um olhar um pouco deslocado mas que eu sempre interpretei como sendo um orgulhoso olhar de indiferença para nós, comuns mortais que não éramos touros metálicos e nem sequer a nós mesmos fazíamos publicidade. Eles eram Pedro Domecq (que salvo erro até tem cavalos) mas é um brandy genuinamente espanhol feito em Portugal.
 
 De quando em vez parava numa terra e enfiava pela goela seca uma canha (que é uma imperial em calão espanhol). Até que a coisa aconteceu. Foi precisamente numa dessas paragens, numa terra cujo nome tenho sempre pena de não saber o nome que eu a vi. Ali estava ela, na montra, extraordinariamente branca, com a frente cheia em arco e imponente entre todas as outras colegas. Era aquela, disse para mim mesmo e nem sequer pensei duas vezes - ou devo ter pensado porque nestas alturas uma pessoa atrapalha-se - e entrei quase de rompante na loja.
 
 Quero aquela! Disse ao lojista tentando colocar algum acento em "aquela" para dizer "aquelha" e em "quero" para dizer "quiero": devo ter feito figura de parvo porque o homem sabia talvez mais português do que eu, o que é uma vantagem para nós nas terras fronteiriças com nuestros hermanos.
 
 Era uma Royalnec genuína e continua a ser porque eu não lhe mudei o nome. Para mim é e será sempre Royalnec e não me interessa aquilo que os outros possam pensar. Tinha-se avariado, numa sucessão de acontecimentos que vinha de longe, conforme já disse: algumas vezes travava nos momentos mais necessários obrigando-me a abrir-lhe as entranhas e a procurar na sucessão de fios algum que estivesse desligado, mas depois de não encontrar nada acabava por dar-lhe razão e por admitir o seu cansaço. E isso vinha a acontecer ultimamente cada vez mais...
 
 Até que hoje ela se ficou de vez: dei-lhe uns toques na frente pensando nalgum emperro e nada! Abri-lhe mais uma vez as entranhas, pesquisei fio por fio e também nada. Pensei que algum grão de pó se tivesse entranhado e apliquei-lhe o aspirador e também nada. Não havia solução pensei ao fim de mais de três horas de pesquisa. Lá se vai a minha Royalnec disse e quase que chorei e este quase é porque um homem não chora.
 
 Mas depois lembrei-me de lhe dar mais uma oportunidade oleando-lhe aquela zona em que os seus dois braços se transformam num só e penetram para o interior do corpo. Falei com ela, depois, disse-lhe que ela me era indispensável e agradeci todos os momentos de lassidão que me tem proporcionado.
 
 Depois liguei-a, tal como disse no início desta história e aqui estou eu, escrevendo no meu escavacado computador esta história ao mesmo tempo que ela, qual escrava fiel num paraíso árabe à Jaime Cortesão me vai refrescando as carnes através do espanejar cadenciado próprio das Royalnec. Sinto que nunca conseguirei ultrapassar o trauma se esta ventoinha deixar de funcionar para sempre.




Article ajouté le 2007-10-28 , consulté 154 fois

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