Reflexão em câmara lenta

Reflexão em câmara lenta
Há bocado tive uma reflexão que achei esquisita porque, para ser muito franco, costumo ter reflexões abrangendo outros campos que não este que vou referir. No entanto, o preocupante depois, e à medida que ia desenvolvendo a reflexão, puxando pelo fio ou dando guita à ideia, se preferirem, o preocupante repito, foi constatar que já não é nem a primeira nem a segunda vez que eu tenho reflexões destas este ano, e ainda vamos nos finais de Junho.
Não as contei, como é claro, as reflexões parecidas com esta que vou referir, mas por grosso e assim a olho, já devo ter atingido para aí a meia dúzia o que dá uma média de uma reflexão por mês, destas, porque outras reflexões diferentes tenho eu todos os dias e mesmo a todas as horas, pelo menos.
Normalmente são reflexões simples, daquelas de trazer por casa, e digo isto para que quem me leia, e não reflicta assim tanto como eu, não fique complexado ou mesmo a pensar que eu sou um reflector desmesurado. Nada disso, estejam descansados. Reflicto muito sobre coisas sem importância, coisas que não valem nada e no fundo, se fosse bem exigente, até era capaz de não contar como reflexão um grande número das reflexões que faço.
Mas esta, esta que vou explicar em seguida é uma reflexão complexa porque conjuga numa só reflexão a reflexão ela mesma e a sua inversa, a que podemos chamar, para comodidade, de reflexão com retro - reflexão integrada.
Pois bem e começando...esta tarde, não muito tarde, encontrei-me a pensar, primeiro, na melhor forma de tornear um carrinho de compras num supermercado - uma grande superfície, daquelas que dão desconto em tudo - e confrontei-me com a possibilidade, que não executei desde logo, de ter de me dirigir à senhora - bastante nova e jeitosa por sinal - e simultaneamente "proprietária" do carrinho de compras que eu queria tornear com o meu carrinho de compras.
A articulação das palavras era inevitável, nada de tossidelas "discretas" que seriam ineficazes pois a senhora estava absorta na leitura de um rótulo de uma lata de cogumelos: provavelmente calculava as calorias, a origem dos ditos, o método de embalagem que não de fabricação porque os cogumelos já nascem fabricados, e por último a sua relação com o preço, sopesando tudo, penso eu, numa delicada operação que absorvendo a totalidade da sua atenção não a fazia reparar no facto de ter o carrinho atravessado no corredor, impedindo-me a passagem até à prateleira dos espargos que estavam logo a seguir aos pickles.
Ora este facto de ter de "falar" com a senhora colocou-me desde logo numa posição reflexiva que eu inicialmente achei interessante mas que conforme disse acima apresenta alguns factores que são preocupantes, a meu ver. Pensei, antes de agir - porque há quem aja sem pensar - sobre a possibilidade que não achei muito remota de, dali, daquelas palavras que eu poderia dizer, um "excuse me" e um "please" para adornar que, sem se saber bem como, poderia dali advir uma frutuosa amizade com encontros entre lençóis ao fim de dez minutos como acontece nos filmes americanos.
Eu sei que é estranho, sei também que há quem já esteja com o dedinho na testa, mas o mais coerente ainda está para vir por isso não se precipitem. Reflecti, ainda sem ter articulado nenhuma palavra, vejam a coisa em câmara lenta no que se refere à posição relativa no corredor dos enlatados entre mim e a senhora e aceitem que eu pensei que afinal não conhecia a senhora de lado nenhum, que não sabia nada da sua vida e que a probabilidade dessa frutuosa amizade vir a ter lugar era remota, muito remota, mesmo.
Pois por menos estranho que pareça, vi-me a vasculhar com os olhos o carrinho da senhora naquilo que era visível a olho nú, e tendo reparado que ela levava um pacote de Skip daqueles gigantes (em promoção) adivinhei desde logo que ela lavava muita roupa em casa (que tinha máquina de lavar também era fácil) o que pressupunha haver mais gente em casa, mas, dando o desconto ao facto de haver desconto no pacotão era até provável que ela vivesse sozinha ou, na pior das hipóteses, para a nossa relação, que ela vivesse com alguém, em comum, mesmo que não fosse casada, coisa que hoje em dia já se usa muito.
Ora isso pressupunha também uma hipótese de infidelidade, coisa a que sou avesso por natureza, mas, vendo melhor as delicadas mãos que ainda seguravam a lata de cogumelos, aceitei, após algum esforço, fugir imaginariamente à regra e aceitar como válida a possibilidade de uma facadita num matrimónio, uma coisinha assim sem grandes consequências e bem justificada dados os valores em jogo (e que valores, digo agora depois de a ter visto melhor).
Pois bem, reflectido tudo isto, procurei dar lustro aos dentes com a língua, abri o sorriso e tentei melodiosamente fazer sair (e consegui) as tais palavras mágicas em inglês porque dá mais classe. Para minha não - surpresa a senhora moça sorriu-me abertamente, pediu-me desculpas atabalhoadas quando me leu o pensamento centrado na leitura dos seus olhos e acrescentou um misterioso mas solene "porque não!?"
E lá fomos os dois, despachando as compras em grande velocidade, deixando de reparar nos preços e mesmo naquilo que se ia metendo nos carrinhos, passámos céleres à caixa menos concorrida e num afogo entrámos no carro dela - nestas coisas sou muito prático, logo vinha buscar o meu - e arrancámos fazendo chiar os pneus.
É claro que, e conforme já devem ter percebido nada disto que escrevi se passou a partir de uma dada altura da escrita. Sou eu ainda reflectindo, porque de facto neste momento em que chego a esta linha continuo agarrado ao meu carrinho tentando tornear o carro dela e ela continua agarrada à lata de cogumelos agora vendo se tem algum buraco no fundo. Mas o encanto continua e a possibilidade está ainda em aberto uma vez que estamos em câmara lenta.
Mas, não acham muito estúpido se eu disser à moça "excuse me, please" isto tendo em conta que estamos em Portugal e ela parece bem ser portuguesa? Não seria melhor um simples "Com licença!" e mesmo um "por favor" para adornar? Ou um "Pardon" talvez...ou mesmo um...

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