Sobre a Unicidade
Sobre a Unicidade
Se partirmos do princípio de que toda a unicidade é uma unicidade formal, que esta se não consegue senão pela redução ao uno das representações, saberemos desde logo que a unicidade é um manto destinado a cobrir a pluralidade dos eventos, em termos nominais e formais, mas saberemos também que o substante que está subjacente a essa mesma unidade única é ele mesmo plural rasgado que seja esse manto, que na sua essência já o está pela via da assunção da ficção uniformista.
Kierkgaard escreveu que "um e só um entrará no reino dos céus" mais ou menos por estas palavras, mas, salvo o devido respeito pelo Soren, isto parece-se muito com a nossa saga actual dos imortais que sendo vários têm de ficar reduzidos a um, alimentando não de forma necessária mas ocasional a sua imortalidade através da sucção da vitalidade dos outros, mas que no fundo, o que pretende significar é que existe a certeza de ficar um e apenas um.
Porquê um (?), tanto nos imortais como em Kierkgaard (exemplo): um é a garantia prévia de que não acabamos todos, sendo certo que nesse um que irá restar se revêem todos aqueles que existem no presente, porque para eles e neles a possibilidade de serem esse um é real, e é também real que esse um entrará no reino dos céus de Kierkgaard.
Assim o um é sempre plural porque a unidade ou unicidade não se manifesta enquanto realidade, vive essa mesma unicidade sempre no mundo da possibilidade, e logo é sempre pluralidade.
Faltaria saber porque é que o homem, o ser humano, não admite a unicidade embora possa suportá-la como eventualidade, como ideia a atingir, como meta nunca conseguída.
Confrontando-se no seu dia a dia com a pluralidade das coisas e mesmo que lhes reconheça factores comuns, a tendência é sempre a de fazer realçar a diferença entre coisas com factores comuns: veja-se o caso dos genomas e das suas qualidades iguais, mas...naquela réstia de diferença apenas quantificada procura-se desde logo fazer ressair uma qualidade que reforce o valor da quantidade diferente.
O homem é pois um deus na sua relação com os outros na natureza, é o escolhido por uma razão que confessa desconhecer, mas é o escolhido e isso lhe chega. Sem isso, sem essa consciência de ser plural com os outros e de ser único na natureza o homem deixaria de ser o homem, perderia a sua identidade, perderia o seu rumo e essa hipótese nem sequer a coloca senão no "faz de conta" inconsequente.
Resta-me acrescentar que nada me garante que outros animais ou outras coisas, se pensarem ou se pensassem, o fizessem da mesma forma, esta última frase numa homenagem ao simpático Espinoza, que definitivamente sabia bem aquilo que dizia.

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