Alvinha

Alvinha
Infelizmente só conheço histórias que me contaram o que sempre é melhor do que conhecer histórias que não me contaram mas podia acontecer eu ter uma história originalmente minha para contar o que sempre actualizava o stock desse manancial imenso de historias que se contam por aí todos os dias.
As crianças são sempre as grandes privilegiadas: nunca ninguém ouve em adulto tantas historias como uma criança nos seus curtos anos de infância e não se pense que isto é invenção minha porque um adulto, mesmo que leia todos os dias um conto nunca conseguirá ler tantos contos quantos aqueles que são contados às crianças.
Mas esta história baseia-se sobretudo numa criança, talvez a única, que não gostava de contos. Era uma situação triste porque na escola era posta de lado pelos colegas (sabe-se que os putos são bastante sádicos, por vezes, em certas idades) e havia até colegas desta criança que a perseguíam até casa jogando pedras e lançando-lhe aqueles desagradáveis dichotes que percorriam quase todo o dicionário infantil, normalmente e para estes casos bem mais recheado do que o dicionário de muitos adultos que atravessaram já essa fase difícil do analfabetismo.
O problema desta criança foi estudado na Escola (os pais foram chamados à Direcção que era o termo usado naquele tempo, hoje parece-me que se diz Conselho Directivo) e até um psicólogo recém licenciado, cheio de teorias procurou encontrar uma razão para a aversão da criança aos contos: ele contou-lhe a Gata Borralheira, tentando acentuar a fase dramática da domesticidade da mesma, a sua subjugação às pérfidas irmãs, tentando assim arrancar-lhe do subconsciente algum sintoma de rejeição familiar, mas nada.
"Gostaste?!!"- perguntou-lhe com aquele ar que só os psicólogos conseguem fazer e o que obteve em resposta foi um rotundo "Não!!". Tivesse ele capacidades telepáticas, o que não é difícil conseguir-se num curso deste gabarito, e teria percebido que ela o mandava à m.erda em ladainha, antes, durante e depois de contada a história.
Tentou o Gato das Botas numa para mim louvável insistência para puxar a criança para o imaginário imaginável o que tem de estar forçosamente em causa nesta estúpida história que ainda por cima não diz quantos quilómetros são sete léguas que é o tamanho de cada uma das passadas do gato quando calça as botas e a resposta foi igualmente um já bem sonoro não como que a dizer "vê lá se acabas com essa treta senão daqui a pouco jogo-te as mãos ao pescoço".
Mas o persistente psicólogo não desistia facilmente, e desprovido que estava da capacidade telepática interpretava como incentivo os palavrões que ela ia murmurando sem ele ouvir com aqueles que terra havia de comer (normalmente são os olhinhos que a terra come mas nesta caso acho que os ouvidos se aplicam plenamente).
Quando veio a parte da Bela e o Monstro o psicólogo exultou: por uns breves momentos pareceu-lhe perceber no olhar da miúda (já disse que era uma miúda!?) um lampejo, um cintilar, um esboço de interesse. Passou a contar a história mais pausadamente para ter a possibilidade de tomar um maior número de notas e, por estranho que pareça neste ponto da história o bloco parecia não ter fim: cada folha que ele desfolhava para trás fazia aparecer logo uma outra em branco.
Falta de auto - estima, escrevia o psicólogo depois de notar um relambório técnico científico capaz de aterrorizar um leigo e se calhar até a ele mesmo quando no silêncio do consultório conseguisse destrinçar a boa trampa que ali ia debitando.
Quando chegou à parte do Monstro se puder transformar num belo e esbelto príncipe - ou esta é a do Sapo?!, bem não interessa - para grande e maior surpresa do psicólogo (deveria ter arranjado um nome para o homem para que isto fosse mais personalizado, e até para a mocinha mas agora é tarde) a dita mocinha começou a rir perdidamente e de uma forma tão sacolejante que quase não se continha na cadeira tais eram os estremeções que lhe percorriam o riso.
Eu podia acabar a história aqui, fazia como se faz nas telenovelas e obrigava os meus poucos fans a escreverem de novo "Crayon conta mais!!" mas não sou cínico a esse ponto. Só quero que pensem nessa possibilidade...
Pois bem, quando o psicólogo quis directamente saber o que se passava e a razão porque ela achava tanta piada a essa transformação de um monstro num belo e esbelto príncipe (ainda por cima rico) perguntou-lhe textualmente :
"Alvinha!! (veio agora o nome da miúda) onde é que achas piada, graça, motivo para risota, laracha, gozo, etc. etc." a mocinha, a infanta, a miúda, parece que acordou de um sonho e logo ali se transformou numa menina normal: o seu ar de fastio costumeiro abriu-se num largo sorriso, recompôs as tranças que andavam sempre uma desgraça, e logo ali, ali mesmo, em frente ao Dr., recitou de uma assentada uma série de cantos dos lusíadas coisa que ela nunca tinha conseguido aprender e já ia no 4º ano.
Perante o olhar estupefacto do Dr.Simões (vamos lá arranjar um nome para este desgraçado) exclamou:
"Gostei muito dessa história. Não me comoveu por ser uma história de amor impossível tornado possível e também não me fez rir pelo facto de ficar a saber que por detrás de um monstro pode estar uma pessoa normal, ainda por cima rica e com sangue azul, herdeira de um trono e a mandar numa série de gente que se vai curvar à sua passagem.
O que me fez rir e rirei eternamente (ou pelo menos tentarei para ser mais rigorosa na expressão) foi o facto de eu ter metido dentro da história a Gata Borralheira a fazer de Bela e a lavar tachos e o sacana do Gato das Botas a medir descalço e a palmo o reino de ponta a ponta. Quanto ao monstro, deixei-o ficar, horrível, mal - cheiroso e sem um tusto. Sempre quero ver como eles todos se vão desenrascar...posso voltar para a semana?!!"

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