Uma questão científica

Uma questão científica
Hoje em dia para se ser cientista não basta saber soldar duas peças simetricamente, inventar uma torradeira ou descobrir a melhor maneira de sair do duche sem molhar o chão da casa de banho. Isso foi noutros tempos em que a ciência se confundia com a tecnologia e quando as pessoas, o simples sapateiro, por exemplo, inventavam o nó de oito para coser as solas e outros construíam uma sólida teoria sobre o efeito clip nos quintais que só abanava em dias de grande ventania.
Hoje e desde há umas dezenas de anos para cá, ou mesmo uma centena de anos, o cientista é sobretudo um indivíduo que discute aquilo que é ou aquilo que não é a ciência. Não precisa de fazer a ponta de um chavelho em nada de nada, não precisa de assentar qualquer tijoleira na obra da descoberta ou da reconstrução dos factos ditos científicos, só precisa de mostrar que tem umas luzes da coisa e a partir daí entrega-se às feras da crítica ( falseadora ou não, não interessa) e discute não a ciência mas sim aquilo que é a ciência.
Chamam-se de epistemólogos porque é um nome fino, ou filósofos da ciência, ou cientistas da ciência e colocam o emblema na lapela e dão conferências a torto e a direito onde demonstram por A mais B que fulano ou beltrano (depende do dia) não faz ciência embora diga que o faz. Mas esse fulano ou beltrano realmente não faz ciência, também, limita-se, tal como o primeiro a dizer aquilo que entende ser a ciência na sua perspectiva "científica" que é sempre melhor e mais científica que a dos outros ou do outro.
O problema do método (acho que o Descartes deveria ter sido baleado acidentalmente em devido tempo) torna-se o problema da ciência. Dado método leva a resultados ditos exactos ou próximos da exactidão matemática? Porreiro...temos cientista e temos ciência, mas...e então esse senhor cientista esquece-se do factor subjectivo, quer dizer, esquece-se que foi nascido e criado em berço de ouro e que as suas concepções, mesmo que matematicamente apoiadas, resultam dessa abébias de nascença e crescimento e estão contaminadas por concepções elitistas?
E mesmo que o não estejam, que o indivíduo em causa seja do tipo espartano, em que escolas se apoia o conhecimento dele? Baahh!! Nesses gajos que já deram o que tinham a dar!? E as pessoas e os factos que constituem a ciência são eles assim tão lineares e de comportamento tão recto que dêem para dizer que o condutor do comboio das oito chega sempre às oito, ou seja, que ele chega ou não chega ao mesmo tempo que o comboio das oito que nunca chega às oito?
Pois falta de haver ciência para ser feita (falta de cientistas de facto) discutem-se não as teorias que fazem a ciência mas sim as teorias que deveriam fazer e não fazem ou não deveriam fazer e fazem a ciência. Esse pessoal, cujo esforço e lábia eu louvo tem emprego certo, muito mais certo que o candidato a cientista ou mesmo o cientista encartado.
Porque no fundo, a ciência é uma seca, uma coisa chata para burro e a alegria de um bom bate papo sobre coisas que duvido muito que as pessoas que as dizem saibam o que é alegra o ambiente, dá aquela ar de disputa à ciência, coloca ligas bwin contra clubes da terceira divisão e promove muitas vezes num ápice um bom falante aos chutos.
Sou contra a pena de morte, a violência e etc. e aquela coisa que eu disse sobre o Descartes (o que não estancaria nunca a sangria mas dava uma ajuda) deve ser entendida metaforicamente mas quanto a mim todo o Descartes foi um erro, uma interpretação abusiva (assim como outros), porque no fundo o que o homem queria era só ocupar o tempo.
Tivesse a televisão sido inventada mais cedo, ou mesmo o cinema, as telenovelas, os filmes de terror, os best sellers de pacotilha, a fotografias de charme (com grandes canastrões, diga-se) ou mesmo o nu erótico e ninguém se interessaria em saber o que é ciência ou não é ciência.
Exceptuando as telenovelas e outros do mesmo género eu trocava qualquer discurso sobre o método por isso e penso que o erro de Descartes não foi um erro mas sim a fatalidade de não ter podido fazer o mesmo que eu prego.
E agora daqui abalo para o meu encontro semanal com o Boaventura Sousa Santos, o Popper, o António Manuel Baptista (com "p"), o Bachelard, o Piaget e mais uns quantos marmanjos, alguns mortos mas não sabem que estão mortos e outros vivos que pensam que estão vivos.

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