Eu e a A
Eu e a A
Hoje, eu e A resolvemos que deveríamos pôr tudo em pratos limpos. Decidimos, espontaneamente, que estava na altura de conversarmos a sério e esclarecermos tudo. Há dias, bastantes dias, que andamos a implicar um com o outro e isso fez-nos supor que havia algo que queríamos gritar um ao outro e que não tínhamos feito.
Fui, eu mesmo buscar um pacote de amendoins à cozinha, trouxe um tabuleiro de pequeno-almoço, abri o plástico pela costura e deitei o conteúdo numa metade do tabuleiro, ajeitando com as mãos de forma a que eles ficassem restritos a essa metade. A outra metade ficou ali, vazia, para as cascas.
Pedi a A que escolhesse o sítio onde queria que conversássemos e ela preferiu o sofá em frente à televisão. Eu teria preferido sentar-me numa cadeira, pousar o tabuleiro ao meio da mesa e ficarmos em frente um ao outro. Teria também oportunidade para escrever, caso fosse necessário. O bloco estava mesmo ali, ao lado do telefone, e o copo com as esferográficas apontando para o tecto funcionava como um atractivo.
Podia haver qualquer coisa para anotar, gosto muito de ir escrevendo as palavras que mais me marcam e que funcionam como um lembrete nestas ocasiões. Se A se repetisse nalgum aspecto mais importante ao longo da conversa eu poderia sempre ver a palavra, lembrar-me por inteiro do que A tinha dito e poderia sempre dizer-lhe: "Já falámos disso há bocado!!"- e dissemos, tu e eu, que era assim ou que deveria ser assim.
Essa conferência de versões normalmente resultava em nova retomada do assunto ocupando espaço na variedade a discutir mas era sempre um ponto de partida para aprofundamento de uma questão que tinha passado ao crivo da profundidade.
Mas A preferiu ficar sentada a meu lado, em frente à Televisão e depois não me admirei muito que A pegasse no comando e metesse na nossa visão a Mtv. O ruído foi logo ensurdecedor e eu pedi-lhe que baixasse o som. A fez de conta, penso eu, que não me tinha ouvido e o som continuou no mesmo volume.
Não faz mal, disse para mim mesmo: Espero que venha uma música mais lenta e depois pergunto-lhe qual o assunto por onde quer começar...e por isso estendi o tabuleiro com os amendoins entre nós, pois que o sofá tem três lugares e nós só éramos dois.
O tabuleiro, se o colocasse de lado era muito largo e obrigava-nos a afastarmo-nos ainda mais por isso optei por colocá-lo com uma das asinhas virada para a Televisão enquanto a outra apontava para as costas do sofá.
É um tabuleiro muito giro, não é por ter sido eu a escolhê-lo dentro de um catálogo imenso da loja dos 300 mas porque é mesmo giro. É em madeira e no sítio onde se pega tem um género de uma asa preta que eu chamo asa de corvo mas A chama asa de morcego. Não sei donde vem o seu gosto por esta ideia um pouco tétrica do morcego e não é por eu não lhe ter dito isso."Os morcegos têm membranas entre os dedos e isto que está aqui são penas unidas, vê-se logo!!"
Nesse dia tivemos uma longa discussão: A insistia que eram membranas pintadas de preto para condizer com o resto do desenho e eu mostrava-lhe a marca inconfundível das penas alongadas. O facto de as asas, na minha opinião, escorregarem pela aba do tabuleiro e entrarem um pouco no desenho do fundo, agora já sem relevo, serviu para A demonstrar, na sua ideia, que não há penas assim nem asas assim que se achatem a esse ponto. Tem de ser membrana para se achatar assim, rematou ela.
Essa foi mais uma vez que eu me calei tal como em tantas outras vezes! Penso que foi isso, o facto de não termos esclarecido logo as coisas que nos levava agora a ter de pôr tudo em pratos limpos. Indo acumulando ideias diferentes e contradições mútuas caladas havia já um número elevado de coisas em que tínhamos de ter a nossa ideia sobre elas e ter consciência da ideia do outro sobre essas mesmas coisas.
Vivíamos um mundo quase paralelizado em coisas importantes, como aquela da ideia do "baixar o som" da Televisão que ela não tinha entendido. Se calhar vou ter de lhe dizer para subir o som, pensei eu, porque ela deve estar a pensar essa coisa ao contrário de mim e os gajos da Mtv estão hoje numa de "abrir" e assim não se consegue falar nada.
Aquelas baladas que por vezes aparecem na Mtv estavam nitidamente afastadas da ideia do realizador que de quando em vez vinha junto da câmara e debitava algumas palavras que eu nem conseguia ouvir apesar do gajo abrir muito a boca como se estivesse berrando.
Não lhe disse para subir o som, poderia A ter regressado à significação exacta e era um risco desnecessário. A logo se cansa, pensei enquanto reparava que A já se tinha feito aos amendoins e já levava um avanço razoável. Respeitava no entanto a divisão no tabuleiro que eu tinha feito e deitava as cascas para o espaço vazio. Ao menos nisso estávamos em sintonia.
Erro meu ter pensado isso: A nas suas primeiras palavras ali soltou logo aquilo que eu considerei ser uma ofensa. Disse-me, falando alto para se puder ouvir, que os amendoins do Lidl eram uma porcaria, que essa ideia de comprar barato era um erro e que já tinha deitado fora quase metade dos amendoins abertos por estarem vazios ou estragados.
Ora esta questão nunca se tinha colocado: A era tão adepta do Lidl como eu. Gostava de encher o carrinho e chegar à caixa e pagar pouco, o correspondente a metade daquilo que se pagava por um carrinho cheio noutros sítios. Todos os amendoins que tínhamos tido em casa, desde o aparecimento das grandes superfícies na cidade tinham sido desde logo do Lidl e só ocasionalmente trazíamos amendoins da Auchan, bastante mais caros.
A situação estava mal, mesmo mal, pensei eu enquanto ia enumerando mentalmente a quantidade de papelada que era precisa para cumprir um processo de divórcio já antevendo o desfecho da conversa. Só em documentos vai ser um balúrdio, pensei eu, sem contar com o tempo perdido no notário, isto se conseguisse arrancar um não -litigioso.
Perante tal ameaça que antevia dei-lhe razão, mais uma vez e disse-lhe que esse era o preço de se comprar barato: a qualidade baixava, dava trabalho andar a separar os amendoins bons dos que não prestavam, mas que no fundo acabava por compensar porque a diferença entre um preço e outro era suficiente para justificar esse trabalho.
Para além do mais isso, dos amendoins estragados, fazia parte do jogo: se todos estivessem bons acabava-se o pacote mais depressa porque seria um ver se te avias. Mas A calou-se e virou-se para a Televisão dizendo qualquer coisa sobre "estes gajos só dão porcaria" mudando então para o Mezzo que transmitia uma ópera em directo.
Assim era possível conversar, pensei. Mas quando ia lançar a primeira pergunta que não teria forçosamente resposta A mudou desta vez para a TVI onde corria uma daquelas telenovelas que correm o dia inteiro. Disse-lhe que não, que aquilo eu não aguentava e A olhou para mim e abraçou-se a mim aconchegando-se ao meu peito: Deixa só ver este bocadinho, até o Pipo correr com o Ricardo que eu depois deixo a Televisão só para ti e vou-me deitar.
Assenti mais uma vez...e fiquei mais uma vez com a sensação de que nunca vamos conseguir falar e gritar um com o outro aquilo que vamos acumulando no dia a dia.

Commentaires