Herança?
Herança?
O que me preocupa, mais do que deveria ser, é o facto para mim absurdo de o homem estar constantemente a tentar alicerçar a sua génese, por um paradigma religioso ou não, como se ser aquilo que é lhe não bastasse.
Não sou, como é evidente, contra as descobertas antropológicas, longe disso: o que me preocupa é ver e ler que, dentro dos cientistas que se dedicam a este tipo de descobertas, existe um manancial humano enorme, que algumas pessoas (cientistas) levam uma vida inteira, praticamente desde que nascem até que morrem, para acrescentar, quando acrescentam, um dedo àquilo que já se vai sabendo.
O que motiva os homens para que, de uma forma tão desoladora (nalguns casos as provas recolhidas são deitadas abaixo anos depois) a procurarem firmar a sua ascendência?
Porque tem o homem uma necessidade tão grande de se afastar do mero nascimento causal ou acidental, porque necessita o homem de trabalhar com bases diferenciadas de si e se não apanha primordialmente por aquilo que é?
Espero ter-me feito entender: não ponho em causa as descobertas dos diversos antropóides; apenas questiono o processo psíquico que leva à necessidade da sua constante pesquisa.
E falo nisto ligando-me com o presente: não existe, no mundo de língua portuguesa, que eu conheça, maior base de estudos sobre a legitimidade do nascimento do que no Brasil. A importância da colonização, da escravatura, dos filhos de escrava, etc. tem para estes nossos irmãos uma importância extrema, ao ponto de terem mais trabalhos sobre a legitimidade dos nascimentos em Portugal do que os próprios estudiosos portugueses.
Num caso e noutro, para mim, o processo lógico é o mesmo: as pessoas não podem viver sem a memória do seu passado e tentam afiná-lo a toda a hora.
Por outras palavras (e tal como eu escrevi no meu Blog -também tenho um, secreto) nós não somos aquilo que somos senão pelo facto de termos sido aquilo que fomos.
Ora esta desidentificação do presente, a necessidade absoluta de nos ampararmos à muleta histórica ou antropológica é, para mim, um problema que me fascina e que sinto estar a mudar.
A juventude de hoje já não se preocupa assim tanto com o facto de fulano ser filho de A ou de B (com a sua ascendência para nós consolidadora da ideia de uma formação psico / social determinada). Primeiro envolve-se, quando acha que tem razões substanciais para se envolver, mas o factor ascendência, família, construção psico / social enquadradora aparece, quando aparece, como mero elemento acessório e quantas vezes motivado na sua descoberta pela insistência dos pais.
Durante quantos anos mais iremos nós (sociedade) preocupar-nos com a nossa ascendência mais ou menos remota?

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