Plutão e Caronte

Plutão e Caronte

Vendo a parte mitológica, bem menos fria e talvez mais complicada do que a parte astronómico científica, Plutão e Caronte fazem uma dupla interessante.

Comecemos por Plutão (Hades) que por acaso era irmão de Júpiter (Zeus), filho de Saturno (Cronos) e de Cibele (Réia) e que, tal como Júpiter participou nessa luta terrível que levou ao final da era Titã e nos fez finalmente entrar na agora mais feliz era dos Deuses Olímpicos.

Pois bem: Plutão ficou encarregado, gerente, administrador e praticamente proprietário de todos os terrenos do Inferno, coisa que ele geria a seu belo prazer, sem grandes preocupações com os deficits uma vez que naquele tempo o pessoal morria como moscas.

Tinha os seus auxiliares (colaboradores) dos quais é sempre bom referir as Fúrias ou Erínias, as pouco estéticas Harpias - a última imagem que vi delas eram assim como um pterodactilo - a Morte (Tánatos) conhecida de todo o bom poeta deprimente e menos deprimente e o Sono (Hipnos) que não compreendo muito bem o que fazia no Inferno senão sob a forma de sono pesadelento e ainda as Górgonas que salvo erro são Hidras, com várias cabeças de substituição rápida.

Haviam ainda as Parcas mas este tema arrisca uma longitude que não justifica estar a explicar agora quem elas eram.

Pois bem, Plutão/Hades era para além disso Presidente do Tribunal lá do sítio, que tinha por função julgar os mortos. Não que eles se importassem muito com as penas aplicadas uma vez que já estavam mortos, mas enfim...para este efeito era coadjuvado em Tribunal Colectivo (no qual tinha voto de qualidade) por Minos (o tal do Minotauro), Éaco e Radamanto, este último de nítida ascendência indo-europeia.

Plutão era homem, um pouco ou muito eticamente formado dependendo das perspectivas e casou-se com Proserpina por artes que explicarei e que acabarão por nos colocar perante o nosso primeiro grande dilema:

Justificará o amor todas as acções?
Até onde se pode ir por amor?
Onde se demarca a confusão entre "os fins justificarem os meios" e inversamente "os meios justificarem os fins"?

Pois bem, retomando o tema fulcral desta dissertação (l'amour!) ainda que tenhamos de enveredar por algumas partes menos relacionadas com o tema, a Proserpina (bem poderia ter arranjado um nome mais a jeito) era filha de Ceres (Deméter) e Júpiter (o Zeus já aqui referido) e logo sobrinha (quanto mais sobrinha mais se lhe arrima era o ditado da época) do seu marido Hades/Plutão, que se apaixonou por ela, coisa absolutamente normal pois parece que a moça era mesmo gira, mas acabou por raptá-la para fazer com que ela casasse com ele.

Tendo em conta a desproporção das forças e a desproporção da beleza, ao que consta Hades era feio como bode (alô Brasil!) poderemos desde logo criar o nosso juízo sobre esta delicada situação.

Justifica o amor de Hades tal acto?
E será que Hades, apesar de tudo era correspondido amorosamente por Proserpina uma vez que há gostos para tudo?

A resposta, para aqueles que gostariam de ver aqui a versão original da Bela e o Monstro terá no entanto de ser negativa. Proserpina amava a vida e sentia-se mal na companhia do marido e dos mortos. As hipóteses de alguma aventura extra-conjugal anti - stressante ficava posta de lado porque os mortos estavam mesmo mortos e para além disso o reino (dos mortos) era escuro e frio como devem ser todos os reinos dos mortos, penso eu, nunca estive em nenhum.

Ora, e aqui entra uma parte que posso considerar confusa ou geradora de confusão: Hades, com todo o seu poder teve de aplicar um truque para que Proserpina vivesse um terço da sua vida no Inferno - o que em média é capaz de dar para aí uns 15 anos tendo em conta a esperança de vida na época - levando a Proserpina a comer uma fruta do Inferno.

Não era uma maçã, para cortar as vazas aos precipitados leitores dos Evangelhos, e se não era uma maçã então o que era?

A fruta era uma romã, uma delicada romã, um fruto daqueles com uma cabecinha que parece uma coroa de rei ou rainha, com muitos baguinhos que são saborosos mas que nossa vida moderna obriga a não comer porque é chato estar a perder tempo. Pois bem e na continuação a romã acabou por ficar identificada como fruta dos mortos (o que eu acho absurdo).

Os mitólogos do copianço a jeito, situados algures na recuperação jeitosa destes temas ancestrais, acabaram também por ficar a considerar Persefone como a Rainha das Trevas o que dá uma conotação exagerada à pobre senhora. Era Raínha do Inferno, não totalmente por sua vontade como se viu e não tinha culpa absolutamente nenhuma que o Inferno fosse, naquele tempo, uma treva.

Tivesse ela vivido alguns séculos mais tarde e teria tido acesso a um Inferno luminoso (excessivamente luminoso), quente, extremamente quente mas que de trevas não tem nada.

Esta Rainha (do Inferno, insisto e não das trevas) é representada como tendo uma romã na mão direita ou na esquerda e um ramo de narcisos na outra mão (direita ou esquerda). Os narcisos ao que consta - e vá-se lá saber se é verdade - representam o momento da sua captura (rapto) por Hades e isto na altura em que ela bucolicamente colhia narcisos.

De notar ainda que Persefone é descrita como sendo uma jovem etérea (sic), de pele alva, olhos pretos e longos cabelos negros, usando um vestido branco (sinal de pureza) e ostentando uma coroa de ouro.

Os dois símbolos que ostenta representam dois momentos negros na sua vida: um o do rapto e outro o da manutenção do rapto e consequente casamento, colocando esta senhora numa piedosa posição de mártir, contra as arbitrariedades do masculinismo, situação que compreendemos e à qual prestamos a nossa respeitosa homenagem.

Mas, e para não deixar esta parte sem um pouco de suspense, mais à frente veremos que Persefone está na origem de um comportamento que podemos considerar impróprio da parte de Caronte.

O que levou Caronte a ter um comportamento impróprio descurando assim as suas funções de guardião mor das portas do Inferno?

Mas, para entrarmos na intervenção de Caronte relacionada com Persefone temos de descrever primeiro quem é Caronte.

Pois bem, este senhor é filho das trevas infernais (Érebo) e da Noite (Nix), sendo que um "as trevas" é masculino e que Nix adoptou este diminutivo não chegando aos nossos dias notícia do seu nome real (in extenso). Quando disse atrás que Caronte era o guardião mor das portas do Inferno deveria ter esclarecido - e nunca é tarde para o fazer - que a sua função era ter o monopólio do transporte de barco entre as margens do rio Aqueronte, em cuja margem direita estava situado o embarcadouro e em cuja margem esquerda se entrava em território infernal.

O neutro do rio é um elemento interessante que não tem preocupado muitos mitólogos (que eu saiba) mas que merece aqui uma reflexão tendo em conta o episódio do CSI Miami que vi ontem à noite. Tratava este episódio entre outras coisas da emigração clandestina entre Cuba e Miami. Ora, e para aqueles que falam mal dos americanos, acontece que o mar que banha Miami tem as suas regras para estes clandestinos.

Se são apanhados pela Guarda Costeira no mar, são devolvidos a Cuba, se por acaso pisam território americano têm direito a ficar nos EUA. Acresce ainda que uma pessoa ferida, ou sem condições de ser repatriada, que necessite de tratamento hospitalar, por exemplo, e porque pisa território americano, "beneficia" do mesmo tratamento dado àqueles que conseguem atingir território americano pelos seus próprios meios.

Ora no caso de Caronte e do rio Aqueronte a situação é um pouco parecida: um morto, mesmo morto, para ser transportado para o Inferno, tem de ter sido sepultado (logo não se trata de um morto no sentido legal mas sim de uma alma de um morto) e tem ainda que pagar pela travessia.

Caso tal não aconteça, ou seja, caso não estejam reunidas estas condições, ficam na margem direita (a margem do embarcadouro) chorando ou para toda a eternidade ou por cem anos, conforme as versões, o que em qualquer dos casos faz muita lágrima derramada.

Acresce que um morto, mesmo no estado de alma de morto, tem poucas possibilidades de se fazer sepultar (porque já não tem corpo para sepultar) assim como também vê a sua vida dificultada para arranjar o óbulo necessário ao pagamento da travessia. A importância não é quantificada o que é importante porque Gil Vicente vem a cair no mesmo erro, arredando assim a possibilidade de um morto com dinheiro a mais se compadecer de outro morto sem dinheiro para a travessia (doando-lhe o restante sabido o preço), fazendo com que a situação deste se torne praticamente irresolúvel.

Na minha modesta opinião a viagem, uma vez que é para o Inferno,  devia ser ou de borla ou obrigatória. A menos que o conceito de Inferno se tenha alterado... Mas - e para deixar o suspense da ordem - Caronte não podia transportar vivos na sua barca. No entanto fê-lo por duas vezes.

Porquê (?), é a pergunta que fica.

Ora estas duas excepções abertas por Caronte têm, primeiro de ser relatadas e depois analisadas na sua significação mais profunda.

Caronte deixou passar Hércules para uma visita ao Inferno pela simples razão que este lhe deu uma carga de porrada quando confrontado com a recusa de Caronte em transportá-lo e deixou passar Eneias porque este levava um ramo de ouro de um tal de bosque sagrado para oferecer (em jeito de super - óbulo para direito a retorno) a Proserpina ou Persefone.

Aqui há que reparar num aspecto que eu acho importante: os gregos, os mitólogos gregos, resolveram a questão da transposição provisória das portas do Inferno à porrada, os romanos (Eneias é o da Eneida de Virgílio) resolveram a questão através de uma oferta, o que demonstra que mesmo nestes mundos esquisitos as coisas evoluem e que evoluem para melhor. Nada de brutalidade, antes um ramo de flores (suponho que fossem flores) mesmo que sejam de ouro e apanhadas num bosque mágico.

Contudo, o papel dos romanos não se fica por aqui, se analisarmos a questão ainda mais profundamente: de uma forma sublime acabaram com esse anacronismo do pessoal não poder ir ao Inferno e voltar, fazendo do Inferno um local com regresso, o que é significativo. Porque o bosque sagrado não se esgotou, ficam lá mais ramos de flores em ouro e a mais subornos poderá o Caronte ser tentado.

Mas Eneias acabou por entrar no Inferno por uma razão que pode ser ponderosa mas que não é de uma gravidade extrema: simplesmente disse a Sibila - que estava numa de responder às suas perguntas sobre o futuro que gostaria de ver mais uma vez o rosto do seu pai.

Sibila desde logo lhe deu a receita: "você quer ver seu morto pai, meu chapa!? Então colhe aí um ramo de flores no bosque sagrado que fica ali ao virar e diz ao Caronte que é para oferecer a Persefone que ele deixa você remar para a outra banda...e voltar!"

Fácil, pois!

Para acabar com esta treta, devo dizer que os mitólogos não têm sentido de oportunidade algumas vezes: Sibila estava a falar sobre o futuro de Eneias, este resolve sugerir voltar (no futuro) ao passado (ver seu pai já morto) e ela entra desde logo numa de resolução do problema, que é um problema de memória e logo um problema de passado, ainda que venha a ter lugar no futuro imediato - demasiado imediato para o meu gosto - de Eneias.

Porque o Eneias, conforme rezam as crónicas, foi de facto ao Inferno, terá visto a mulher, o pai e mais algumas pessoas mas não podia falar com elas. De que serve uma ida a qualquer lado se não se consegue comunicar com os mortos!?

Não faz sentido, é assim como um suplício, como passar em salas vidradas, à prova de som e bala, pela nossa amada (de preferência com ela em trajes menores), saber-se que ela tem um daqueles vidros espelhados da polícia do lado dela que só dão para a gente ver e não dão ao contrário e estarmos num sítio que não tem acesso possível à sala onde ela está.

Pagar a uma outra pessoa um ramo de flores de ouro por isso?! Francamente!



Article ajouté le 2007-12-12 , consulté 269 fois

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