O rabo da Etelvina

Ser criança tem os encantos próprios de se ser criança e é espantoso como, vendo pelos olhos de hoje, verificamos como somos pouco exigentes quando somos crianças. A Etelvina era uma moça um pouco mais velha que nós, no nosso grupo, grupo esse que variava conforme o local onde nos encontrávamos e que não tinha limites cerrados de idade mas era sim delimitado pelas brincadeiras que cada um assumia.
Não falo de jogar futebol, que isso era comum, ou hóquei em campo, com sticks feitos de um pau com uma madeira pregada no vértice inferior. Tudo isto numa rua de terra batida onde por volta das cinco horas da tarde tínhamos de retirar as balizas (duas pedras a fazerem de poste em cada lado) porque passava o único carro que existia na zona e o senhor era boa pessoa mas muito chato e como a mulher dele nos andava sempre a oferecer suspiros de açúcar tínhamos a deferência para com ele de lhe desimpedir o caminho para evitar que ele tivesse de travar uma antiguidade que a existir impecável como naquele tempo valeria milhões hoje.
Mas a Etelvina faz parte de um outro universo, sem carros automóveis, que era onde íamos passar parte das férias grandes: metade praia, metade campo, era assim. A terra onde íamos, eu e meus irmãos, tinha já os grupos formados, havendo selecções que eu não compreendo agora, mas que na altura aceitava bem.
Nós não éramos ricos (nem pensar!) mas entrávamos no grupo dos filhos dos lavradores e dos filhos dos seus serviçais. Estes grupos, por sua vez dividiam-se de acordo com as rivalidades locais dos patriarcas: a nós, como estranhos e veraneantes era-nos facultada a possibilidade de ultrapassar essas rivalidades instituídas, normalmente resultantes de divisões familiares por questões de heranças, uma vez que haviam relações de parentesco entre os tais de rivais.
A Etelvina era borderline neste aspecto; ou seja, embora servisse (era mais ou menos criada numa exploração de trabalho infantil que era muito comum naquele tempo) numa casa de lavradores quase secularmente desavindos com outros, era frequente encontrá-la quer indo buscar duas ou três cabras leiteiras, ou mesmo numa horta a colher tomate ou outro legume qualquer ou a lavar roupa numa pedra pousada sobre um tanque alinhavado, mas não tinha relação de dependência para com nenhum grupo porque a sua família não tinha quaisquer terras.
Era a única família que não tinha, pelo menos, um naco de terra, umas hortitas e umas courelas para a lavoura e toda a família vivia do trabalho que outros lhes davam: a mãe da Etelvina caiava casas, fazia limpezas, daquelas anuais e era chamada para cozinhar ou para ajudar no amassar da farinha e no cozimento do pão em dias em que os comensais eram mais numerosos ou mesmo quando havia um qualquer baptizado ou um casamento, o que era raríssimo pois aquele burgo talvez não contasse com mais de quinhentas pessoas.
Participavam ainda a Etelvina e a mãe com o pai e marido em cultivos de terras alugadas à estação, ou seja, os lavradores dispunham de terras que não tratavam directamente - embora este directamente seja muito indirecto, pois era raro vê-los senão a dar ordens e a ter funções de organização - e todos os anos faziam a entrega dessas mesmas terras àqueles que não tendo de todo terra (caso único do pai da Etelvina, naquele sítio) ou que tinham capacidade de trabalho para mais do que aquilo de que eram proprietários.
Voltando à Etelvina, hoje mulher, mãe e provavelmente avó, era da praxe ver o rabo dela todos os anos pelo menos uma vez nas férias...podíamos andar todos os dias, cerca de um mês, sem pensar nisso, mas quando se aproximava a altura do regresso à cidade, a inocente ainda que marota caçada começava. E ela sabia disso e participava na brincadeira, inocentemente também, mas com alguma marotice maior que já ia tendo, não daquela marotice com sexualidade à mistura, mas jogava o jogo e aprimorava cada ano o seu desenrolar tradicional.
E por vezes eram dias quase inteiros que levávamos nisso, na caçada ao rabo da Etelvina, sem que para tal interrompêssemos outras actividades: andar de fisga na mão tentando acertar em pássaros (coisa que nunca conseguíamos!), andando em pegos quase secos procurando eirós que não tinham tido a ideia de ir com a última corrente da Primavera ribeiro abaixo, ou mesmo uns peixes do rio que levávamos para casa mas que nunca comíamos porque tinham muitas espinhas. Aliás aqueles peixes deviam ser (e são ainda, concerteza) os recordistas mundiais da concentração espinhal por centímetro quadrado, mas havia sempre quem os comesse, apesar disso.
Eram bons tempos: nós levávamos os peixes, as enguias também não comíamos porque estávamos convencidos da existência de um parentesco íntimo destas com as cobras de água e o pessoal não se chateava que nós, com apetite resultado das actividades pedestres, gamássemos um tomate, uma laranja, uma ameixa ou mesmo umas amêndoas... desperdiçar é que não valia: ou colhia-se e comia-se tudo ou não se colhia. Deixar um tomate roído a metade numa horta era sinal de que na próxima oportunidade tínhamos descasca.
Pois bem o segredo com a Etelvina era que ela não podia saber que nós lhe víamos o rabo mas ela sabia que nós lhe espreitávamos o rabo. Era vê-la, agachada, levantando um pouco a saia de forma a mostrar o traseiro, mas apenas o suficiente para que ele fosse visto rente ao solo, rasgando em duas bochechas a paisagem de terra seca por vezes "regado" em fio marulhento.
Era da praxe, tinha de ser feito, tinha de ser visto e ela, no seu gozo algo descontraído fazia-nos sofrer, simulando que ia baixar-se e levantando-se imediatamente ou remexendo a saia como se fosse baixar-se: era assim que tinha de ser, o rabo da Etelvina devia estar colocado rente ao solo, nós só víamos as nádegas e ela só mostrava as nádegas, nada mais que isso.
Um ano a operação atrasou-se para além do normal e estava em riscos de não acontecer, o que para nós era dramático: já no final das férias tínhamos percorrido nos últimos três dias as hortas que ela frequentava, os tanques onde lavava a roupa, as pastagens das cabras de leite caseiro e nada de rabo da Etelvina. A tradição estava em risco de se quebrar e nós não entendíamos a falta de colaboração dela. A Etelvina crescera e não estava para mais brincadeiras, era isso, pensámos...as pessoas crescem e mudam e os jogos de antes não são os mesmos de agora.
Não era bem isso, mas quase...a Etelvina "fizera-se" mulher, a sua biologia tinha-se antecipado aos nossos desejos um ano ou dois e ela tinha crescido por isso esse mesmo tempo, um ou dois anos também.
Tinha talvez os meus oito, nove anos, não me lembro exactamente mas foi nessa altura que eu e os outros deixámos de ver o rabo da Etelvina para sempre...mas ainda me lembro do gozo que fazíamos quando o víamos: era um gozo assim como se apanhássemos alguém numa situação quase ridícula e comprometedora, como aquelas senhoras que escorregam numa rua e se levantam muito depressa como se nada se tivesse passado, ou mesmo uma situação como aquela da chique Dª Maria Teresa que tinha deixado escapulir um estrondoso traque ao sair do seu carro em frente a um ajuntamento de pessoas que se silenciara para a cumprimentar.

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