Minha mãe
Minha mãe
As pessoas como a minha mãe nunca deveriam envelhecer, não é que ela seja diferente das outras mães, que também não deveriam envelhecer, acho eu, é apenas um sugestão, mas deveriam as mães todas amadurecer, assim como os cereais, como as frutas, como os legumes, sei lá, qualquer coisa assim que lhes desse aquele ar de já não serem jovens mas que não lhes desse aquele ar de planta, flor ou fruto em deperecimento, fracamente agarradas aos ramos das árvores e ameaçando continuamente que vão cair no solo e por lá ficar.
Não sou muito hábil a escrever sobre estas coisas, a minha escrita não se coaduna muito com as coisas que eu acho tristes, porque sempre tenho tido uns laivos de humor, e sempre tenho achado isso indispensável para escrever, mas neste caso acho que não posso, não devo e não posso usar esse humor em relação ao facto da minha mãe, e todas as mães, acho eu, não deverem envelhecer.
Custa um bocado a gente, os filhos e filhas, verem as suas mães envelhecerem daquele género de envelhecimento que já não é amadurecimento mas sim quase uma ameaça de termos perante nós a sua queda eminente, como fruto caído de uma árvore a que devemos chamar de árvore da vida.
As mães devem nascer, crescer e envelhecer, se isso for indispensável, mas com aquele género tranquilo e pausado com que povoaram a nossa infância, a nossa juventude, os nossos casamentos, as vida dos nossos filhos, sempre assim, mantendo aquele ar de sabedoria e aquele ar reconfortante que sempre nos foram dando ao longo da sua vida. E um dia, se tivesse de ser, partirem, também calmamente e com conforto, assim do género de um dizer adeus como se fossem dormir e soubessem que não voltavam a acordar e nós soubéssemos também que as nossas mães não voltavam.
Mas tudo se deveria passar bem, deveria ser tudo calmo, de forma a que no dia seguinte a nossa vida continuasse quase na mesma, quase da mesma forma, com outra mãe ou com alguém a fazer de nossa mãe ou a gente a fazer de mães ou pais. Assim estava bem, na minha ideia...
As mães, as nossas mães, não merecem cair numa confusão de ideias, por exemplo, na necessidade de terem de ser tratadas até nas coisas mais básicas, naquelas coisas tão básicas que nos fizeram a nós quando éramos crianças e mesmo depois quando fomos adultos e estivemos doentes, porque elas, as mães, nunca estiveram doentes, antes. Sò estão doente agora, que já são velhotas...
Depois há a imagem que nós fomos criando das nossas mães ao longo dos anos: mulheres, é certo, não arrancaram árvores pela raiz nem abriram estradas, no seu tempo era tudo a pá e picareta, mas quase, passe o pouco ecológico da questão, que arrancaram árvores que se depararam como barreiras à nossa frente e abriram-nos caminhos que de outra forma talvez não conseguíssemos trilhar. Uma mãe, a nossa mãe, deveria ser sempre forte assim...
Custa-me ver uma mãe a tremer sem conseguir agarrar na colher sem derramar o caldo, sem conseguir segurar um prato, sem conseguir aguentar o peso de uma garrafa de água senão quando cheia pela metade, ver uma mãe ter de comer a sopa por uma palhinha, beber por uma palhinha, dizer que assim não quer viver, que lhe custa viver, que não quer dar mais trabalho, que quer partir sem ser a dormir calmamente como eu penso que deveria ser, sem se dar por isso, calma e pausadamente, irradiando aquela auréola luminosa que durante tantos anos derramou sobre nós.
Uma mãe deveria ter um estatuto diferente, deveria ter direito a isso, a um estatuto especial quando fosse velhinha sem chegar a ser velhinha. Deveria ter sempre um sorriso nos lábios, uma mão carinhosa afagando-nos o cabelo, e verter algumas lágrimas, também, porque mesmo sendo adultos para elas nós somos sempre os seus meninos.
É pena que não seja assim e que nos últimos anos de vida de uma mãe tudo se conjugue para tentar que nós esqueçamos aquilo que foi para nós a nossa mãe.
Acho que Deus deveria ter pensado melhor nisto, na minha opinião deveria ter visto esta coisa de outra forma, da forma que eu disse acima, mais ou menos: deveria deixar que as mães continuassem a ser as mesmas mães que conhecemos até ao fim.

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