A Falta de ideias

A Falta de ideias

Eu andava preocupado com o facto de não ter inspiração para escrever o que quer que fosse. Andava triste, sentia-me sem ideias e mais importante que isso sentia que mesmo que tivesse ideias acabaria por me cansar rapidamente de as passar para o papel.

Era, na minha perspectiva uma dupla derrota e para mais antecipada: era como entrar em campo sabendo desde logo o mau resultado, era sentir-me preso numa teia ou num casulo, onde por mais que estrebuchasse nunca conseguiria romper as suas paredes.

Nunca sairia deste estado de embaraço (perplexidade): se tivesse ideias não as passaria para o papel e, não tendo ideias, a percepção que tinha era que tudo seria vão, mesmo que as tivesse, hipoteticamente, porque acabaria por esbarrar no muro seguinte que seria a minha falta de vontade ou de habilidade ou a minha falta de vontade de escrever.

Dividi, em desespero e mentalmente a questão em várias hipóteses: não tendo ideias mas se tivesse vontade de escrever podia muito bem utilizar as ideias de outra pessoa qualquer. Não seria a primeira pessoa a fazê-lo e não me cansei de repetir num arroubo de consciência ética que nós, humanos, somos uns excelentes papagaios.

Por outro lado, caso tivesse ideias e não tivesse vontade de escrever podia muito bem emprestar as minhas ideias a outro para que ele ou ela as escrevesse. Era tudo fácil, na minha ideia, se o problema não fosse realmente duplo com uma vertente tripla em bi acoplada conforme vim a perceber depois.

Assim, e resumidamente, o composto após a primeira confrontação dialéctica e praxística passou a ser o seguinte :

nem ideias nem vontade de escrever eu tinha - primeira conformação;

mas, na tal de terceira vertente bicaudal eu nem tinha a ideia de dar a outro ou outros as ideias que eventualmente viesse a ter, nem sequer tinha a vontade de aproveitar as ideias que outros viessem a ter e me as transmitissem.

A questão é bastante complicada, embora se sujeite e aceite vários níveis de leitura nesta última componente da bi-partição: se eu à priori não tinha vontade de aproveitar as ideias dos outros, será que as ideias dos outros existem ou existiam, em termos psico-socio-científicos, isto entendendo que somos nós, cada um de nós, que damos a "vida" à nossa realidade ?!

Perante estes dilemas, que em termos mais finos ainda que de senso comum se chama de bloqueio de escritor - neste caso bloqueio duplo de escritor - com derivação aprofundada, os sintomas tornavam-se mais grave e eram já merecedores de um tratamento especial à base de ervas e de acupunctura, coisa que eu fiz, a parte das ervas porque quanto às agulhas nem pensar e neste corpinho ninguém toca trespassando, salvo nos casos em que cientificamente ou mesmo pelo senso comum se prove que não há outra alternativa. Ex: havendo anginas ou comprometimento da deglutição é paradoxal receitar comprimidos, logo injecção para cima.

Quando eu morrer podem muito bem, desde já digo, fazer aquilo que entenderem que eu lá do etéreo para onde seguramente subirei borrifando me estarei e até rima, para mais verdade ser.

Assim, e regressando deste devaneio, bebi quase toda a qualidade de chás de ervas existentes no mercado e outras que não existindo no mercado me foram secretamente sugeridas como remédios infalíveis e aqui estou eu, escrevinhando com a barriga inchada, com pouco tempo de permanência média debout porque o apelo da sanita é irresistível, e eu, qual como se ouvindo sereia em sons modulantes, sinto que, apesar de continuar desinspirado, estou a ficar viciado no ténue ruído das descargas do autoclismo.

Valeram-me no plano físico os chás, com os inconvenientes agora apontados e no plano psicológico a sensação da perplexidade fez-me repelir as escoras que suportavam esse pesado bocado de pedra tornando-o baloiçante o suficiente para permitir desde agora (e até quando?) alguns lampejos de vontade.

Não tenho estória nenhuma para contar, aliás mesmo que tivesse não sei se conseguiria contá-la até ao fim ou mesmo até ao meio, mas tenho este estado de espírito a difundir porque acredito piamente naquele velho princípio que diz que desabafar faz bem.

Assim, esta estória, é apenas e só uma divagação sobre a minha falta de ideias e sua aplicação em diversas perspectivas e diversas conotações que normalmente se agrupam sob os termos de "falta de ideias". Quanto aos chás, e se esquecermos ou dermos pouca importância ao jactante efeito diarreico, aconselho o Parte Pedra, que sabe horrivelmente mas nos dá a consciência forte do saber até onde pode ir a nossa imbecilidade.




Article ajouté le 2008-01-30 , consulté 207 fois

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