Poemas a Venus Pandora
Poemas a Venus Pandora
I
Lá na concha branca
onde mergulhas o teu corpo
há as rosas e os peixes
Na branca concha
debruçam-se os olhares
que em tudo te vêm
que a tudo te sabem.
Do claro e do escuro
cortando o transparente
emergem
nadando
as tuas mãos
nas minhas mãos
e qual fundas âncoras
içadas no momento
sorvemos o ar
de rostos acostados
aos cabelos húmidos...
ao que foge ao tempo.
II
Pão que dora
em forno quente
em manso latejar
de labareda
pão que comemos
em gesto lento
pão que sacia
noite fora
noite dentro.
III
Eu sou aquele que se senta
sem descanso,
e ainda sou
aquele
que num canto novo,
puro e livre,
me levanto,
ao aceno do meu povo.
Como teus sonhos vividos,
com damas de escuros véus
e crucifixos plantados
em peitos desguarnecidos
eu me cumpro nos meus idos
em cada Maio
cada vez mais triste.
És minha, eternamente...
terra das rosas,
dos cravos armados,
das campas avermelhadas,
dos trigos baloiçando,
em sopro manso, mansamente.
Eu sou aquele além
e este aqui
vagueando
e ouvindo os cantos
sem descanso.
IV
Terra que se percorre
em ribeiro manso
enquanto crianças
de olhos firmes
apontam no sonho das luas
com lápis de giz
a corrida da noite.
Em serenas madrugadas
roçam os pés dos homens
o solo
e seguem por esta
e por aquela rua
sem pressa
sob um céu de cores paradas
ouvindo as aves corujas
interromperem seu canto.
Na sua última hora
a noite esgota-se
no portão negro da fábrica
e na certeza
dos dias repetidos.
V
Semi Plágio
Deixemo-lo sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele, sonâmbulo, magnífico
segue o sofrimento, e sabe.
De esquina em esquina
um luar sem sono
vela o seu passo
dormido tactear
no dorso de vagas,
com fantasmas
cavalgando ao lado.
Pasma-se na orla das praias
colado às dunas
silêncio transtornado.
Deixemo-lo sofrer
que o sofrimento paga!
VI
Renegando os medos e rogando pragas
mordendo lanças e zagaias
o poeta arremete-se
e às quatro horas da tarde
planta-se vencedor
em pleno centro do centro de Lisboa
Ela, a mulher,
-porque há sempre uma mulher-
abre então à mesma hora
as portas ao castelo que já não guarda
e lança-se nos braços do poeta
que a partir daí é seu amante
(nunca antes).
Ele, cansado e descansado
pega-a ao colo e acaricia-a
(vagarosamente mas não vagamente)
do alto da cabeça até ao fim do tronco
e por aí se fica.
Em pleno centro no centro de Lisboa.
VII
Com um sopro
quero tocar o teu corpo,
e matar saudades,
e fazê-lo saltar
de peito fremente,
como um ramo destes pinheiros altos.
E ouvir o silêncio
e o espanto.
Depois, acendo um cigarro.
E fumo.
Tu não.
Dizes-me...
-Eu tenho asas
e um ninho
e medi a altura do Sol.
Talvez amanhã...
VIII
A luz do dia tenta
(mas não consegue)
apanhá-lo de surpresa
enquanto frágeis labaredas
lhe saem da garganta
(é um foguinho morto,
um sopro débil,
um arder que não arde
nem queima).
Da bruma avermelhada e baça
espreita-o uma mulher nua,
branca, branca,
mas quase purpura
ao seu olhar.
Deu-lhe o vento,
e levou-a ao cabo do mundo
navegando-a no débil grito
(é um grito morrendo,
são palavras frágeis,
que nada dizem
nem podem dizer).
O ofício de poeta
já não é ser herói.

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