Tristeza
Cada vez estou mais triste e por mais anedotas que me contem hoje nada me faz sequer sorrir. O processo de des-sorrir, degenerativo como se entende, foi antecedido (mas não cedido) pelo processo do des-rir, que é igualmente degenarativo mas vive num campo paralelo e sem ligação com o outro a não ser através do saltinho de paralela a paralela.
A metodologia e a "geografia" do sistema é igual para o processo do des-gargalhar que foi aquele (visto no sentido progressivo e não degenerativo, ou seja, sem "des") por onde eu comecei a agir (?) quando confrontado com as primeiras anedotas que me foram recitadas. E foi este, o des-gargalhar ou o não-gargalhar o primeiro sintoma que eu notei no meu comportamento indicador de alguma coisa, para mim, digna de análise em termos comportamentais e, segundo as regras mais elementares, provável merecedora de um tratamento.
Não sei, hoje, se eram belos tempos, esses, o da gargalhada, porque já não me lembro do que é uma gargalhada senão pelo facto de ver atitudes semelhantes àquelas que tive nos meus primórdios do reconhecimento anedotístico. Não é propriamente um caso de amnésia (selectiva, neste caso) mas antes um caso de esquecimento puro e simples. Deixei de gargalhar há muito tempo, logo esqueci como se gargalha.
Guardo contudo, religiosamente, algumas fotos que me foram tiradas nesses tempos, ainda a preto e branco, quase todas e algumas naquele castanho escuro quase pré-históro na história da imagem batida em chapa com flash de acendalha. Quer dizer, são fotos tiradas no meu tempo da gargalhada, no tempo do riso e no tempo do sorriso, por esta ordem decadente na intensidade emotivo(?)- reaccional perante o facto contado, mimado por vezes e até meramente e só gestual.
Por acaso, e agora sem ser a talhe de foice, tenho uma dentadura destacada em branco alvo nos fundos escuros, uma excelente abertura labial e ainda uma pressão ligeira, mas significativa, no semi-cerrar dos olhos e nalguns casos vê-se perfeitamente um lacrimejar malandro despontando quase em esguicho pelo pressionar das pálpebras (duas), nos casos dos close-up's.
Dito isto, o polegar erguido em carrinho, quer dizer, com dois dedos em arcada e o indicador saliente apontando o espaço que antes se desenhava em pinchagens coloridas nas paredes brancas como sendo o nove de pão, três de vinho, uma agulha e um pontinho, tem sido ultimamente a minha reacção quando sou confrontado com uma anunciada anedota. Nova forma de gargalhar (?) pergunto-me levantando o ténue manto de uma esperança que já não me dá alguma esperança e que funciona apenas como uma frustrante tentativa que é, de facto, uma reacção automática, instintiva e, porque não (?) geneticamente alicerçada.
Desde há anos (muitos) mal me dizem "queres ouvir esta!!?" ergo a dedagem e por mais chateado que fique o mais bem intencionado contante não desfaço o gesto senão perante ameaças de morte: um murraço nos queixos aceito, um chega pra-lá idem, mesmo daqueles mais violentos que me levam ao chão e por aqui ando, neste trame trame que alguém com muito saber já definiu como sendo uma tristeza de tristeza.
Tristeza pura, semi-doentia porque ainda nada me foi receitado pelo médico, que por acaso dizem que é uma grande anedota porque só receita medicamentos depois de esgotadas todas as outras possibilidades que incluem andar uns quantos quilómetros por dia, fazer piscinas públicas de lés a lés, deixar de fumar, comer peixe e muitos legumes e fugir dos fritos e sobretudo da comida de plástico, essa fonte do mal importada e definida como sendo uma guerra culinária entre o norte do óleo de soja e outros derivados e o sul do azeitinho oliveiro.
Mas, para ser muito franco, não me sinto de todo excluído em termos sociais, ou seja, não estou borderline nem sequer outline socialmente porque pertenço a um grupo de apoio daqueles que não riem, como eu, nem sorriem, nem gargalham (isto existe?), grupo que conta cada vez com mais elementos neste nosso jardim à beira mar encravado.
Calculam os nossos estudiosos (eu não estudo merdas destas por receio de voltar a rir!) que a percentagem daqueles que não riem aumenta em Portugal e no mundo a cada dia que passa calculando-se já uma percentagem razoável de não ridentes (15%) com tendências a atingir no ano 2020 a soberba percentagem de 20%. Como estaremos - pergunto eu - em 2100 ?!
A indústria do riso, antes florescente, quem não se lembra dos "Parodiantes de Lisboa" ou daquele folheto a que chamavam jornal e que era "Os Ridículos", foram injustamente (ou justamete para mim que não rio) arredados da circulação herteziana e impressa, para não contar com outros que eram igualmente de partir o coco, por falta de clientela, quer dizer por falta de pessoas que busquem no riso o seu melhor remédio (selecções do Reader's).
O que está a dar hoje é a tristeza, como remédio santo para se evitarem essas asneiras que se fazem quando se está eufórico: comprar casas, carros, jóias, tudo a prestações a perder de vista no tempo e quantas vezes a perder de vista no pagamento."Compre que logo paga!" para mim não serve: nem compro nem logo pago senão o essencial para manter esta minha tristeza viva que caminha, e ainda bem, em direcção ao nirvana da tristeza.
Num país de tristes, com tristes expectativas, com políticos e outros dirigentes tristemente dirigindo, estar triste é ser realista, é não beber desse enganador vaso que cheio de optimismo à superfície é como água "misturada" com azeite.
Estas constações, simples e não exaustivas, noutros tempos, dada a sua simplicidade, dariam vontade de rir...

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