O Cairo é pequeno

 

Há um escritor egípcio, que até teve um prémio Nobel e de cujo nome me não lembro, que, na altura da atribuição do prémio e sendo praticamente desconhecido, foi abundantemente dado a conhecer pelas publicações relacionadas com a literatura. Isso durou para aí um mês, essa difusão intensiva, depois vieram para a rua os livros que interessava publicar devidamente traduzidos, discutiram-se os livros e mais qualquer coisa e o homem, como todos os homens, acabou por ser relegado para o lugar que tinha anteriormente com uma ligeira alteração: passou a ser um desconhecido conhecido.

Não era propriamente sobre esta questão que eu queria debruçar-me, do reconhecimento e do conhecimento, mas não resisto a escrever mais algumas palavras sobre esta questão: o desconhecido é a pessoa anónima, precisamente igual ao desconhecido serralheiro, ao trolha, ao técnico sanitário de recolha de lixo (já não se diz os homens da carroça do lixo), aquele anónimo que apenas é falado quando se diz que Portugal tem dez milhões de habitantes e ele é um deles.

Já o desconhecido conhecido tem outro estatuto um pouco diferente. É desconhecido mas torna-se repentinamente conhecido desde que o seu nome, as suas indicações, neste caso o prémio Nobel, seja dado. Continua desconhecido para a larga maioria das pessoas mas essas mesmas pessoas sentem que é quase criminoso colocá-lo ao lado do tal trolha e etc. referidos acima.

Pois bem, na altura do seu prémio Nobel li eu um conto dele, assim não muito complicado ou muito sujeito a análises, cujo título traduzido era "O Cairo é pequeno!" onde ele dissertava sobre aquelas coisas da vida que só acontecem se partirmos do princípio, neste seu caso, de que o Cairo é mesmo pequeno, o que como todos sabemos, não é verdade e que a sua população mete a da zona metropolitana de Lisboa numa gavetinha numérica.

Tinha o narrado personagem cometido uma qualquer tropelia com uma rapariga, havia anos, e um dia, tendo-se perdido nesse Cairo pequeno, foi precisamente ter, depois de algumas bolandas, a casa de um familiar da dita rapariga que o reconheceu e logo ali terá tratado daquelas coisas que normalmente são atribuídas aos árabes (e só aos árabes e aos negros e muito pouco outros) que foi uma vingança fria, um pagamento justiceiro daquele seu erro cometido no passado.

A coisa para mim está difusa neste ponto e não sei descrever exactamente qual foi o castigo aplicado (acho que a morte) mas a ideia é que nós, através da escrita, pudemos tornar os universos mais largos ou mais estreitos, desafiar as leis das probabilidades, fazer quadrados geográficos e sociais consoante os critérios e as medidas que nos aprouverem.  Basta que tenhamos um argumento, um guião. Através da escrita...

Mas, através da realidade, como se consegue tal coisa? Não se consegue, como é evidente, mas não deixamos de pensar que existe uma coisa qualquer acima de nós que faz com que as coincidências apareçam como acontecimentos normais e vice versa quando elas têm lugar: já me aconteceu fazer diariamente um dado percurso, quase sempre à mesma hora ou mesmo à mesma hora, e um dia, por causa de um obstáculo simples, um taipal daqueles de fita da Câmara colocado no percurso enquanto se arranja um cano rebentado, por exemplo, ter de optar por um desvio e encontrar, devido a esse desvio, um amigo ou um conhecido que não vejo há anos e se tivesse seguido o percurso normal, agora impedido, não o encontrava certamente ou não reparava nele.

Pois e indo à história propriamente dita: aqui há dias ia pela estrada, um pouco atrasado, e a dada altura do percurso deparo-me (eu e quem me acompanhava) com um acidente que envolvia dois ciclistas e um carro: um dos ciclistas estava já morto e não foi ressuscitável, apesar dos esforços e o outro, não sabendo exactamente com que limitações ficou, foi transportado na ambulância normal (porque há uma ambulância especial para os cadáveres e uma ambulância especial para os vivos).

Nós fomos os segundos a chegar com alguns conhecimentos de saúde, que não vou dizer quais são e já lá estava uma médica, anestesista por sinal que seguiu quase espontaneamente as suas rotinas de reanimação, entubando, fazendo massagem cardíaca, usando o desfibrilhador depois deste ter chegado...mas não havia mesmo nada a fazer. O homem estava definitivamente morto se é que a morte não é sempre definitiva.

O outro, que também merece algumas palavras, seguiu consciente para o Hospital e por aquilo que me apercebi não corria risco de vida embora estivesse em muito mau estado.

Pois bem e regressando às coincidências: bastava-me ter passado por aquele local um minuto ( ou mesmo dois) antes e não haveria para mim ainda acidente. Bastava-me ter passado por aquele local cinco ou dez minutos depois e já estaria lá toda a gente de socorro, desde ambulância a carro rápido e embora acabássemos por parar e perguntar se era precisa ajuda o mais provável era que essa mesma ajuda não fosse necessária.

Outra coincidência de notar : entre os quinze dias em que fizemos regularmente aquele percurso levámos sempre uma criança connosco, excepto nesse dia. Criança essa à qual não seria desejável "mostrar" o trágico daquela forma tão crua, ou mesmo de outra...

Ainda, e por último, ambos ficámos a reconhecer o falecido depois de sabermos por outras vias quem ele era. Ali, no local do acidente, a nossa identificação da pessoa não era possível. Era um desconhecido que passou a desconhecido conhecido por duas vias: devido ao acidente e à sua morte e devido ao facto de ficarmos depois a saber quem ele era.

Era um senhor com o qual não privámos muito durante cerca de dez anos em que vivemos num local próximo do do seu trabalho mas que nos era conhecido. E era-nos conhecido, ou mais conhecido, devido sobretudo ao que se segue. A nossa mente não tem o poder da previsão e neste caso eu teria bem dispensado que ela tivesse guardado esta memória e não uma outra sobre o senhor.

Tinha uma particularidade que agora me custa descrever, mas que vou ter de referi-la porque esta era a sua marca enquanto vivo e enquanto o conhecemos (nós e muitos outros, quase todos, afinal) : tinha o cabelo longo, o que não era muito próprio da sua idade na altura (talvez uns cinquenta anos) cabelo esse que utilizava de uma forma não muito discreta para passar sobre o crânio calvo de forma a sucessivamente e por camadas passar de um lado para o outro e assentá-lo depois com uma faixa de tecido que ia da fronte à zona da nuca e por isso, por causa da faixa que trazia sempre, chamavam-lhe o Sandokan.

Estas coisas, por muito insignificantes que possam ser (e são), quando incluídas num tema tão trágico e grave como este, e quando tenho mesmo que os referir porque fazem parte da ideia e são essenciais para a descrição da ironia do viver e do morrer fazem-me sempre pensar que os desígnios de Deus são, pelo menos estranhos e que o seu arco de acção é, por vezes, menor que o Cairo, quando Ele quer.

 



Article ajouté le 2008-03-07 , consulté 147 fois

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