Poesia zero

Há dias em que estou assim para o chateado e escrevo uma história divertida, ou que procura ser divertida e nem sempre o é porque esta coisa de fazer histórias, divertidas ou não tem que se lhe diga.
Não se fiem muito naqueles argumentos que a gente vê nas novelas ou mesmo nos filmes em que as coisas parecem sempre ter elevados graus de imaginação e divertimento, tristeza ou tragédia mesmo, daquela sangrenta, com sangue a jorros ou explosões de carros, barcos, camiões (normalmente de dezoito rodas que dá mais efeito) porque aquilo é tudo feito em série e normalmente as repetições são tantas que ao fim de cinco ou seis episódios ou desde o primeiro lá andam eles, os argumentistas, à roda da mesma coisa, a contar o mesmo que já contaram.
Pois bem, e regressando que agora já me ia perdendo nos meandros dos meus encavalitados pensamentos, quando estou triste, escrevo uma história, o que me acontece com frequência, estar triste, diga-se; na verdade sou um gajo triste por natureza, já nasci assim, penso eu que sim porque na altura não estava em condições de analisar bem a situação, mas penso que aquele clássico choro provocado pelo açoite no traseiro logo à nascença teve o seu perverso e marcante efeito e estou-me a ver, a imaginar, melhor dizendo, a dizer uns quantos palavrões ao médico.
A história de hoje, para variar, não tem qualquer assunto por onde se lhe pegue, ou terá, conforme se entender porque estas coisas dos regressos ao passado são sempre interessantes e este saltitar entre datas funciona assim como um arranjo da coerência intemporal naquilo que normalmente se chama como sendo um resumo temporalmente ordenado em meia dúzia de linhas ou como sendo um apanhado menos desordenado do que estava antes de começarmos a escrever.
Assim e sem mais delongas vamos ao fundo da história que não tem fundo naquele sentido literal e mesmo não literal porque no fundo não tem fundo nenhum por mais que se remexam as palavras e se tente, como se faz muitas vezes, ver sentidos profundos nas parvoíces que se vão escrevendo ao correr do teclado como fez aquele meu amigo, objecto fundamental desta história, e que já deve ter falecido.
O S., lá pelos idos de 70/80 arrancou grandes aplausos com o seu original poema avant garde que dizia mais ou menos assim verso a verso: zero, zero, zero, alternando o número de zeros escritos verso a verso durante para aí uns dez "versos" para culminar num apoteótico final ressaltando abaixo do espaçamento das linhas com um gritado (em letra maiúscula) "ZERO À ESQUERDA!"
A questão que me preocupa se é que eu deva preocupar-me é que durante muito tempo fiquei sem saber se as pessoas aplaudiam o "poema" porque eram uns gajos porreiros com taxas de alcoolémia de assustar qualquer balão de estrada, se era porque tinham "pena" do poeta que era esquizofrénico daqueles bem sucedidos, quer dizer, daqueles que apesar de serem esquizofrénicos conseguem tratar das suas vidas independentemente, ou se o poema deveria mesmo ser considerado bom e eu fui dos poucos a não o entender.
Encontrei este poeta depois de longas ausências e desencontros numa cama de hospital depois de ter sido atropelado numa daquelas estradecas interiores no campo onde o pessoal vai conduzindo aquilo que pode até que bata em qualquer coisa dado que não se vê a ponta à noite.
Levei-lhe aquelas coisas que normalmente se levam aos doentes, bolachas, sumos e deixei-lhe dois maços de cigarros escondidos a seu pedido no fundo da gaveta da mesa de metal que fazia de mesa de cabeceira. Conversámos um bocado, pouco porque ele estava nitidamente pouco compensado psiquiatricamente, mas tivemos ainda oportunidade de recordar o seu poema de tanto sucesso.
Com os olhos ainda semi- inchados das feridas e com um brilho quase lacrimejante lá me foi dizendo um dia em que se sentia melhor que tinha sido esse tempo do poema o seu único momento de glória na vida que agora ali jazia vai não vai depois de ter andado na mesma durante muitos anos.
Tinha sido o seu grande tempo de auto-satisfação, o seu tempo de maior perenidade na sensação de ser útil à sociedade e não um mero peso sustentado pela Segurança Social.
Viveu feliz enquanto durou o "sucesso" do poema entre os amigos, viveu feliz depois recordando o poema e os bons momentos do seu apogeu quando estava mais só ainda e mais triste ainda e trazia-o sempre na algibeira, cuidadosamente dactilografado, ocupando o meio de uma folha A4.
E tudo issso para quê !? - disse-me enquanto me estendia a mão numa despedida que parecia não querer ainda que tivesse lugar durante os dois primeiros dias de visita. Depois, no último dia que o vi, ele recordando-me a efemeridade das coisas acrescentou: de tantos amigos e de tantos aplausos resultou que eu fui o único a visitá-lo.
E logo eu que fui também o único a "não compreender" o poema tal como ele o sabia desde sempre.
Foi nesse mesmo dia, enquanto em saída deixava cair pelos corredores do Hospital algumas recordações de outros momentos bons e menos bons meus que eu compreendi finalmente que nem sempre interessa aquilo que o poema é mas sim aquilo que ele significa para nós : este poema zero e este poeta zero foram ambos vivendo e falecendo à esquerda da virgula da vida e isso estava escrito desde há muito na folha A4 que lhes coube no livro de registo que das suas leis os não libertou.

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