A ucraniana triste

 

Todos nós temos, pelo menos durante alguns dias, uma ucraniana nas nossas vidas, sendo isto válido quer para homens quer para mulheres. As ucranianas, louraças na sua grande parte, um pouco pimbas também em grande parte - para o nosso gosto - são normalmente bem feitas.


Este "normalmente" refere-se à visão geral que se tem das ucranianas porque também há frascos, pentes, tábuas, bundas descaídas quase a roçar o solo e caras de meter medo como em todos os povos e nacionalidades e nas ucranianas também.


Mas, estas, as ucranianas têm tido um efeito despoletador de algumas situações que as tornam desconfiáveis aos olhos das consolidadas mães de família: alguns maridos vêm nesse maná mais jovem uma oportunidade para se safarem de situações de opressão ou simplesmente da monotonia matriarcal, e, casamentos duradouros, em princípio presos por fios (nem outra coisa seria de supor) têm sido desfeitos por meia dúzia de arranjos internacionalizados e, como seria normal se não fosse anormal, as ucranianas, sendo uma parte ínfima nos processos de separações e divórcio que têm lugar todos os dias, acabam por funcionar como bodes expiatórios.


"Estavas a olhar para aquela ucraniana!!"- diz meio gritado uma mulher para o seu legítimo e esta é uma acusação que pode irromper ecoando em qualquer instante da nossa vida mesmo quando estamos a olhar para a montra da ourivesaria. "Não sabia que aquela pulseira era ucraniana"- responde-se, lesto - "estava a pensar oferecer-te o bijou quando fizéssemos 150 anos de casados". E depois a história continua com o clássico "não disfarces que eu bem vi!" e mais umas quantas vociferações possessivas que podem até levar à amostragem do cartão amarelo da vida que é a fotocópia da certidão de casamento.


Mas a "minha" ucraniana é uma ucraniana triste, um pouco leve para o hábito da nacionalidade, não muito alta, talvez com cerca de 1,70 m, e pouco mais de 60 / 65 Kgs. A sua riqueza maior está nos olhos tristes, cansados mesmo, que apresenta.


Não disse mas vou dizer que ela trabalha como caixa num supermercado onde vou todos os dias. Em rigor é mais um minimercado alargado, está aberto aos domingos e que só é possível aos minimercado largos e não às grandes superfícies, e frequento-o entre outras coisas pelo facto de ter um pronto-a-comer que me satisfaz relativamente na clássica e sempre estudada relação preço qualidade.


O cozinheiro não é um barra, salga alguma comida em excesso, e quando não a salga em excesso atasca-a de condimentos levando-me a um consumo excessivo de água durante a tarde, mas, fundamentalmente desenrasca-se nos cozinhados e pelo preço que é e pela proximidade de minha casa acho que vale no balanço.


Leve eu lulas recheadas, filetes de pescada ou mesmo lombo de porco assado, ela, a ucraniana dos olhos tristes ou cansados está sempre lá, numa caixa: acho que deve ser o horário de trabalho dela que coincide com o meu de ir ao super mercado mas certo também me parece ser que mesmo que vá a horas desencontradas ela acaba sempre por estar ali, sentada, a passar pelo leitor de códigos em infra-vermelho os mais diversos produtos, desde sacos de batatas a embalagens de pão-rico e agora nesta época mais próxima do Natal alguns perfumes e loiças.


Não faço qualquer esforço para ir àquela caixa, antes pelo contrário, porto-me como se estivesse comprometido não estando e escolho a caixa que menor fila tem. Mas, dentro desta ginástica de serpenteio entre cestos e carrinhos de empurrar acabo por ir ter com a ucraniana dos olhos tristes vezes quase sem conta: é preciso notar, para o caso de haver dúvidas sobre a minha seriedade intelectual, que as caixas abertas são normalmente poucas, embora haja uma bateria delas ao longo da casa ao ponto de quase saírem pelo corredor fora em direcção ao parque de estacionamento.


Pois bem, e voltando donde nunca saímos: a ucraniana é simpática, ou pelo menos não é antipática, mas é extremamente profissional: passa-me as sopas, o pão, as embalagens de comida e o que mais levar pelo visor de infra vermelhos que vai apitando e fá-lo não propriamente com pressa mas com eficácia e é no momento em que ela me repete a soma que devo pagar - e que eu antes já vi no visor da máquina - que tenho oportunidade de ver melhor os seus olhos tristes: acho que são verdes, ou azuis, nunca reparei bem, mas que eles têm uma dose elevada de tristeza espelhada isso é um facto que nunca me merecerá contestação.


É claro que aqueles que me lêem neste momento devem estar a pensar que eu estou caidinho pela ucraniana dos olhos tristes mas posso confessar que não: o que me interessou nela e sempre me interessa é ver os seus olhos tristes. Desejaria saber um dia porque é que ela tem os olhos tão tristes, mas acho que nunca o saberei, porque nunca o irei perguntar e daí talvez nem ela soubesse responder-me a meu contento.


Não deve ser fácil a vida de uma ucraniana em Portugal ou em qualquer outro lado. Nunca é fácil a vida de ninguém em lado nenhum por isso as razões para ter os olhos tristes podem ser das mais diversas e algumas bem adivinháveis e que são comuns entre a comunidade emigrante de um Leste que já foi mais ou menos rico ou remediado e que agora exporta mão de obra barata.

Mas esta ucraniana tem os olhos tristes mais tristes que eu já vi...e é esse o facto mais marcante na "minha" ucraniana.

 



Article ajouté le 2008-05-16 , consulté 177 fois

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