Porque é que eu me casei


 


Esta questão, de saber porque é que eu me casei, na sua base, não interessaria directamente a ninguém senão a mim e à mulher com quem dei ou não o tal de nó (que raio de metáfora!) e por arrasto tradicional aos padrinhos que pagaram (se pagaram) as alianças, aos pais dos noivos que pagaram o almoço (vulgarmente chamado de copo de água), e aos meus filhos, se eu os tivesse, e interessaria apenas por uma questão de preenchimento de um hiato que nunca seria aliás questionado para eliminação nesta nossa semântica histórico - vivencial porque ninguém repararia nele se esta questão não fosse levantada.


Cerca de noventa e nove por cento da população não sabe porque se casa e joga mão da resposta mais corrente e mais ligeiramente dita que alguma vez uma mente sã pode irresponsavelmente argumentar: "casei por amor!" é a resposta desses tais noventa e nove por cento da população casada o que, traduzindo para a linguagem crua da realidade quer dizer simplesmente que não sabem, não respondem, não têm opinião formada, etc. como nos questionários para as sondagens e estatísticas.


Ora, pelo facto simples de tentar contar aqui porque é que eu me casei, esta questão, de origem eminentemente pessoal ou familiar próxima, torna-se uma questão de interesse público - mesmo que não desperte qualquer interesse a definição é esta - e acaba por essa mesma razão por interessar e ser importante para outros que de outra forma não se sentiriam sequer tentados a aprofundar a questão (a preencher o tal hiato histórico vivencial acima referido). Por isso, e concretizando mais: o facto de eu tentar dizer, explicar, desenvolver, a ou as razões porque me casei tem uma função psico - social importante pelo menos mas não só para os tais noventa e nove por cento da população casada que alega falsamente "amor" como causa substancial do seu estado civil.


Por outro lado existe o factor desperto que pode fazer deste meu mísero texto um verdadeiro thriller: o facto de que uma resposta minha a esta questão possa ser surpreendente (casar por dinheiro não tem surpresa nenhuma, digo desde já) leva ou pode levar à interiorização especulativa, pode levar ao dissecar das entranhas mais freudianamente acamadas da nossa mente, ao palpite reflexivo, ao conhecimento de respostas que nunca foram procuradas porque a questão nunca foi posta senão daquela forma superficial que leva ao "casei por amor! (e não me chateies mais!)" do despacha diário já repetidamente referido acima.


Ainda, e não largando desde já as implicações imediatas, a minha questão desde logo vestida com resposta pode vir a satisfazer um pouco aquela curiosidade epidérmica de todo o ser humano tem sobre estas coisas. Nada é mais interessante do que ouvir ou ler uma confissão, mesmo que essa mesma confissão nada traga de novo. E é, por isso, epidérmica, a curiosidade, esta curiosidade quanto às razões de um casamento (o meu, neste caso) porque está colocada na nossa mente como se estivesse à flor da pele, não daquela pele que nos transporta e nos envolve como um saco de celofane, mas sim porque é de reacção e espevitamento quase natural, instintivo por cuidado defeito (default) mas sobretudo é , ela, essa curiosidade, inconfessadamente projeccional.


Ou seja, através da confissão do outro constatamos a nossa vontade interior de nos confessarmos também e mostramos depois ostensivamente a nossa independência em relação à manada não nos confessando.


Agora, e se repararam bem verão que a minha resposta se encaminha para o clássico "diz-me porque casaste e dir-te-ei quem és", porque afinal é disso que se trata: ou seja, e por outras palavras, toda a gente se estaria borrifando para as razões que levaram ao meu casamento se não estivessem curiosos para saber as razões porque se casaram (no caso dos casados) ou porque se casam as pessoas (no caso dos solteiros) e ainda outras variantes que me levariam a encher páginas e mais páginas até estragar a paciência aos mais resistentes.


Por exemplo, e só como exemplo: "Se ele se casou por isso (que eu eventualmente vou dizer), porque é que eu me casei pelas mesmas razões" - ou em alternativa - "por razões totalmente ou parcialmente diferentes?"É pois fatal, na minha perspectiva, que exista da parte de quem me lê, uma identificação pela positiva ou pela negativa, ou seja, uma comparação, com as razões que levaram esse leitor a casar-se ou a não se casar e é nessa perspectiva que é lançado este texto - desafio.


Até porque, e para vencer alguns argumentos contraditórios que podem nascer nesta altura ou mais tarde no decorrer desta reflexão, se tiverem a oportunidade (e a vontade) de analisar as vossas próprias reacções cuidadosamente verificarão que eu tenho toda a razão: alguns sentir-se-ão identificados, outros tentarão sublimar a identificação pelo riso e outros ainda, os mais perigosos para si mesmos, recusarão agressivamente os factos porque, independentemente do tempo em que estiverem casados ou solteiros, estão no perigoso processo de negação absoluta da sua mesma realidade pré, durante e pós conjugal. Não querem ouvir, não querem falar no assunto, é como se ele não existisse e nunca acontecesse ou pudesse acontecer.


Para este pessoal, o ser casado ou ser solteiro não tem qualquer valor significante: casa-se, ou fica-se solteiro "porque sim"!Erro e não admissão do erro andam de mãos dadas...como num casamento, e redundam na repetição do argumento do já referido "casamento por amor", a tal definição default (ver acima).Pois bem, e dito isto, eu casei-me mas não sei se me casei. Portanto, saber a razão porque me casei (se me casei) é uma questão com uma relevância maior ainda do que responder sumariamente dando as razões porque me casei, que não sei uma vez que não sei se me casei ou não.


Como não sou machista (não quero ser) não vou referir que um dos elementos motivadores da nossa relação de amizade e posterior namoro e mais posterior eventual casamento foi o facto da mãe dela (da minha mulher) ser uma excelente cozinheira: resultado disso, dos excelentes pratos que ela confeccionava eu estava quase sempre lá caído em casa deles (eventuais minha actual mulher, minha actual sogra e meu actual sogro) e devo confessar que procurava quase sempre as horas das refeições para ter alguma coisa para estudar com ela.


Éramos, pois, colegas de escola...e de mesa frequente...mas posso assegurar e aliás será absolutamente absurdo considerar-se que eu me casei (se me casei) por causa da boa comida: se fosse por isso namorava eternamente, como é claro e mais claro se tornará se eu disser que a minha mulher (casada comigo ou não) não herdou nada da habilidade materna no que se refere a panelas e tachos.


Namorámos, mesmo assim, alguns anos, bastantes, muitos, e um belo dia, estávamos os dois sozinhos em casa dela (eu estava à espera do regresso da sua mãe para ir saindo à hora do jantar e ver se ficava) quando, num dos momentos em que estávamos no namoro, daquele tradicional, com uns beijinhos, alguns apalpões e nada de mais moderno, eu tive uma visão.


Nada de muito importante, essa visão, em termos de cenário, mas tinha o seu interesse surrealista porque era assim como um sonho onde tudo se passava em câmara lenta: eu, estava de fato vestido e com um lacinho às bolinhas a fazer de gravata e caminhava por uma passadeira vermelha em direcção a um estrado onde estava um indivíduo vestido de preto com uma túnica branca até aos joelhos.


Era assim parecido com um indiano, tipo Ghandi, com barbicha branca e um sorriso de orelha a orelha. Mas era labialmente um sorriso compassivo, daqueles que emanam felicidade embora eu notasse que havia um certo ar de gozo nos seus olhos e os olhos nunca enganam.


Atrás de mim, e caminhando na mesma passadeira, do género pisando sobre os passos que eu pisava na carpete, vinha então ela, a minha actual mulher mas ela tinha a vantagem de nem sequer pousar os pés no chão, parecia que levitava, trazendo agarrado a ela um senhor muito distinto e muito gordo que, esse sim, pisava o chão deixando espalmadas as solas de biqueira larga. Acho que ele não conseguia levitar...


À pergunta - feita pelo homenzinho do yoga - se eu gostava de marmelada lembro-me que respondi sim e depois, quase de imediato, parece-me que desapareceu aquela visão e vi-me sentado a uma mesa rodeado de iguarias das mais diversas com montes de gente a cumprimentar-me e a dar beijinhos na moça.


Ainda hoje me pergunto se ainda estarei, sem saber, a viver a tal outra e segunda visão...Onde acaba a visão e começa, se começa, a realidade é coisa que nunca soube até hoje...mas uma coisa é certa, nunca mais vi a minha mulher levitar...e ela que levitou tão bem!



Article ajouté le 2008-05-20 , consulté 110 fois

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