A solenidade do buraco

O mirone, termo depreciativo normalmente utilizado para quem gosta de ver, não forçosamente porque não gosta de fazer, mas a maior parte das vezes porque não tem mais nada que fazer, é um fenómeno que tem sido referido ao longo da literatura e mesmo na filosofia: Jean Paul Sartre por exemplo utilizou o sistema (mironês) para dizer que não se pode ser espectador e actor ao mesmo tempo, questão que eu acho discutível mas que não vou aqui discutir.

Por sua vez um escritor americano (salvo erro Erskine Caldwell) relata num dos seus romances a luta entre dois indivíduos pela "posse" de um buraco na parede de um armazém naqueles ambientes um pouco surrealistas do campesinato americano dos anos 20 ou 30, com homens de calças de presilhas à jardineiro e ausência de banho anual.

Pois o dito buraco dava para a apreciação não de qualquer coisa extremamente escandalosa, não para a visão intromissora em algo de íntimo e pessoal mas sim para uma extensa pradaria, vazia e sem qualquer significado se fosse vista da porta do dito armazém. O importante era, pois, o buraco, a visão que era proporcionada pelo filtro do buraco, o facto de haver algo a separar o espectador da paisagem, a sensação diferente que era ter de mexer o corpo, e o olho, para olhar para a esquerda ou para a direita, enfim, isto vai continuar!

Quando se trata de obras, sobretudo as públicas, é frequente ver-se nos taipais pequenos furos, apenas suficientemente largos para que uma ou mais pessoas possam espreitar e não sei se por piada se por filosofia empresarial aparecem por vezes os dizeres, acompanhados de seta a feltro :"Espreite por aqui."

Ora, eu, já tive uma experiência ilustrativa, que estudei para colecção de intelecto, numa fábrica onde trabalhei: um indivíduo tinha o hábito, à hora do intervalo matinal (dez minutos) de ir comer a sua sandes ao mesmo tempo que espreitava por um buraco arredondado colocado acidentalmente (talvez resultado da projecção de uma pequena peça em grande velocidade) no centro de um vidro fosco que preservava a intimidade da oficina.

Só havia aquele buraco e ele era dono dele...ninguém se atrevia a antecipar-se a ele e ninguém mais parecia interessado naquilo que passava para além do buraco e no seu campo de visão, talvez porque como eu fiz já tivessem visto o que lá se passava. Uma senhora de cerca de 50 anos, à hora a que espreitei, estava a por a mesa, em traje informal de dona de casa, distribuía os pratos e os talheres e nada mais.

Ora, este elementos todos e mais alguns que fui recolhendo ao longo dos anos, de forma desinteressada e sem objectivo desde logo definido, levam-me hoje a fazer a reflexão que se impõe sobre a "magia" do buraco. Há de facto algo de solene espreitar pelo buraco mesmo que aquilo que se vê seja precisamente aquilo que se pode ver de forma "livre" e aberta.

O buraco soleniza as coisas, faz aquela separação que Nietzsche chama de separação entre actor e público, nas suas Origens da Tragédia. Aquela sensação de não estar por dentro soleniza aquilo que está por fora e a prova está nas referências literárias que fiz acima mais naquele caso em que participei pessoalmente na oficina.

Mas, mais que isso, o pessoal que trabalha numa obra, e isto é importante, mesmo muito importante, não é objecto de crítica se por acaso estiver encostado à bananeira a deixar passar o tempo até ao apito de saída. Se perguntarmos a um "espreitante" usual ou não o que acha disso ele dirá nuns casos que não tem nada com isso, está ali para espreitar e nada mais e outros, sobretudo se lhe perguntarmos isso vestidos de fatinho e com pastinha preta dão-nos logo o raspanete: "E você pelos vistos tresanda a suor!"

Ou seja, eu posso não estar a trabalhar, posso ir a caminho do trabalho, posso ter saído do trabalho e ele, o tal encostado à bananeira dentro da obra está dentro das suas horas de serviço, mas, como se vê goza de um estatuto especial: está para além do buraco, pertence a outro mundo, a um mundo solenizado, a um mundo onde são consideradas normais coisas que não são consideradas normais a quem está para cá do buraco.

E é fácil confirmar, com os meios diários, aquilo que escrevo: nas repartições públicas ou mesmo em escritórios ou balcões públicos ou privados o pessoal que lá está tem de estar sempre a trabalhar, tem de ser rápido, despachado. Se quiser gozar a alegria de um sossego pontual tem de se esconder ou na casa de banho, ou atrás de estantes onde não seja visto pelo público. Qualquer conversa pessoal que seja apanhada é desde logo objecto de crítica e ela é mais acentuada quanto maior for o tempo dispendido.

Ora, e como vimos isso não acontece a quem está para além do buraco, da parte daquele que tem uma separação nítida e impeditiva de marchar à sua frente, aquele que não se pode fundir com o observado, aquele  que não faz parte do mesmo "ambiente" funcional. Opta então essa pessoa pela ausência de crítica ou pela resposta grosseira contra quem levanta esse problema em termos académicos como referi acima.

Como conclusão apressada resta-me dizer que continuo a estudar o assunto...acho que o buraco merece.




Article ajouté le 2008-06-01 , consulté 90 fois

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