História de terror

 

Sempre quis escrever uma história de terror mas sempre que me agarro ao teclado chego breve à conclusão que não serei capaz, que tenho uma tendência forte para partir o coco com essas coisas, do terror, da exploração do medo, da exploração dos nossos fantasmas e dos fantasmas dos outros e que nada conseguirei fazer capaz de, pelo menos, fazer pele de galinha a alguém e muito menos capaz sequer de habitar um pesadelo de uma pessoa mais sensível a estas tretas.

A mecânica das histórias de terror, contudo, é para mim simples: baseia-se nas câmaras lentas dos sonhos, tem uns picos de desconhecido que passa a ser nebulosamente conhecido assim como se uma mulher levantasse um pouco a saia guardando o que de mais recôndito tem, mas, na realidade tudo aquilo que se escreve é como se fosse tudo aquilo que se vê porque não há mais nada para ver na mecânica das histórias de terror: basta insinuar que existe algo para além daquilo que se vê ou lê e o trabalho está feito porque a imaginação faz o resto quando não se fica satisfatoriamente acagaçado simplesmente pelo imediato visível ou lisível por falta de imaginação.

A nossa mente de homo sapiens tem coisas que são pelo menos esquisitas e para as histórias de terror só precisa de se saber isso: os dois extremos da tabela dos QI são aterrorizantes, de facto, para a maior parte da malta.

Numa linha, ser um imbecil completo, desde que se seja um pouco misterioso nas reacções, que se tenha atitudes chamadas de incoerentes dentro do leque da coerência exigida ou esperada de um imbecil, proporciona terror em barda. Se o imbecil pesar aí uns duzentos quilos e tiver a compor o ramalhete uma cara cheia de bichocos, uma placa que só por exclusão de partes se poderá chamar de dentária e conseguir falar de forma rouca e simultaneamente gutural, está feito, está construída uma personagem "de meter medo".

Noutra linha, a oposta, ser um ser extremamente inteligente, daquele género de inteligência que a gente sente que nos vasculha a alma, que adivinha os nosso pensamentos, que sabe tudo e mais alguma coisa, independentemente das sua características morfológicas, essa pessoa mete medo mas mete daquele medo assim para o insinuante, quer dizer, dispensa a cara feia e a voz e, como é inteligente consegue levar-nos à certa mesmo que gente não queira e isso é igualmente aterrorizante.

Portanto e em resumo: o feio ligado ao estúpido assusta mais fisicamente, o inteligente ligado ao feio ou nem por isso assusta mais mentalmente. Por isso, e partindo destas duas premissas que aqui se colocam para simplificar e abreviar o texto, o inteligente assustador vive na sua terrífica pele independentemente da forma enquanto que o feio para ser mau mesmo praticamente não precisa de nada. Precisa sim, o feio / horrível de provar constantemente que é inofensivo o que o coloca desde logo em desvantagem perante o inteligente terrífico.

E esta questão, parecendo ser de pouca importância não o é, na realidade, porque trata de uma convicção socialmente assumida de longa data: o feio tem imediatamente "ordem" para ser mau e retira-se-lhe o benefício da dúvida desde logo construindo-se o pressuposto de que o é, de facto, mau, até prova em contrário desde que a essa sua aparência não acrescente a inteligência.

O inteligente, ou culto, é sempre bom até prova em contrário, ou seja, não precisa de provar nada, os outros é que têm de provar que ele é mau, se o for. Como se vê, até aqui, no terror a sociedade classicista se manifesta da forma mais impúdica.

Por isso, porque teria de jogar mão dos chavões sociais que odeio é que eu sou incapaz de escrever uma história de terror...aliás, e como disse acima, começo desde logo a partir o coco perante a persistência no cultivo e rega do cliché, e isso - o cultivo do cliché - é que é aterrorizante, quanto a mim.




Article ajouté le 2008-06-06 , consulté 111 fois

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